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cap.2 -PELAS BARBATANAS DE SÃO PEIXINHO- Joyce Mobley

24/03/2010

PELAS BARBATANAS DE SÃO PEIXINHO DOURADINHO! -JOYCE MOBLEY

Íbora tomou o caminho para a casa do Senhor Líber, que ficava perto das algas e logo ao lado da Magnífica Vitória Régia. Lá chegando tocou de leve a campainha, e chamou:

– Senhor Líber…

Logo escutou os resmungos que sempre acompanhavam esse estranho senhor. Era impossível saber se ele realmente resmungava, ou se as suas barbatanas careciam de um pouco de óleo deslizante:

– Quem chama?

– Sou eu, Senhor Líber, Íbora. E gritando acrescentou lá da porta:

– Eu preciso que o senhor me conte sobre o lago, o grande lago sem margens…

– Psiu! Silêncio!

Íbora assustou-se e por uma fração de segundos pensou em voltar o mais rápido possível para a Real Sala da Diretoria da Escola Palaciana, mas a porta foi aberta com tanta rapidez, que Íbora teve a certeza de que o Senhor Líber havia finalmente comprado um tanto de óleo deslizante!

– Rápido! Entre, entre e não fale nada até que eu feche a porta e todas as janelas… E continuou:

– Peixinho insistente e imprudente, não sabe que há certas coisas que jamais devem ser ditas em voz alta? Aliás, há coisas que jamais devem ser ditas em qualquer voz! As bolhas das águas têm ouvidos e espalham as palavras mais rapidamente do que se possa imaginar…

Senhor Líber falava bem baixinho para certificar-se de que não havia nenhuma bolha fofoqueira, ou algum peixinho passando disfarçado de distraído. Conduziu Íbora por corredores aquáticos que mais se pareciam com um labirinto, e finalmente começou a resmungar:

– Você não vai mesmo me deixar em paz antes que eu lhe conte sobre o Grande Lago sem margens, não é mesmo?

Íbora fez que sim com a cabeça, o que para um peixinho significa chacoalhar o corpo todo já que eles não têm pescoço como nós…

– Por favor, Senhor Líber, eu preciso saber se há um Lago, um Grande Lago sem margens…

Senhor Líber coçou a cabeça com as barbatanas e então disse:

– Há muitos anos, quando eu ainda era jovem como você, meu melhor amigo costumava falar sobre esse lugar… Disse que uma vez quando estava ao lado do ralo tentando enxergar o que havia por trás das grades, ouviu uma voz que lhe dizia para sair, para atravessar o ralo e então poderia conhecer outras formas de vidas que não fossem determinadas por ladrilhos limitantes.

Íbora abria mais e mais os olhos, e ouvidos, e escamas, para poder ouvir o que Sr Líber sussurrava:

– Sim, Senhor Líber, sim, por favor, conte-me mais sobre essas outras formas de vidas, sobre esse lugar que não se aperta entre ladrilhos, por favor, por favor, por favor. E Íbora falava tão rapidamente, tão empolgado, que sua voz começou a ficar mais aguda…

– Psiuuu! Silêncio, criança! Quer que nos ouçam?

– Não Senhor Líber, não quero não, e prometo não contar nada do que o senhor está segredando…

Falando bem baixinho, Senhor Líber contou que ele e seu amigo planejaram cuidadosamente a fuga através do ralo. Foram meses de planejamento até que marcassem o dia, porém, no último momento o Senhor Líber sentiu muito medo e decidiu não partir com o amigo… Despediram-se ali nas grades do ralo e seu amigo prometeu que um dia voltaria para lhe contar como era a vida no Grande Lago.

Íbora ouvia-o atentamente, para não perder nenhum detalhe que pudesse ser importante. A cada revelação sentia mais seguro de suas próprias idéias, e menos sozinho nos seus desejos. Estava certo de que havia um Grande Lago, assim como estava certo de que atravessaria aquele horrível ralo para descobrir o que havia do outro lado! De um momento para o outro, Senhor Líber interrompeu-se e disse:

– Agora chega!  Basta! São apenas histórias de um velho maluco; nada, além disso…

– Não, Senhor Líber, continue, por favor! Sei que não são apenas histórias, e o senhor também sabe. Por favor, eu preciso que o senhor continue a contar! Como foi que ele escapou por entre as grades? Ele voltou? Como é o Grande Lago?

– Eu já disse que chega! Não há nenhum Grande Lago! Não há vida diferente desta que você vive! Não há nada além das grades do ralo! Não há saída, conforme-se! Meu amigo nunca voltou; a única coisa que encontrou depois do ralo foi à própria morte.

Senhor Líber parecia cansado e triste, mesmo assim Íbora insistiu:

-Mas, se ele não voltou pode ser um sinal de que há outros lagos, que há outras formas de vida que sejam diferentes desta…

– Já chega menino, pois isso é algo que jamais saberemos. O mais provável é que ele não tenha sobrevivido, e eu o abandonei no momento em mais precisava de mim. Talvez se o tivesse acompanhado pudéssemos unir nossas forças para atravessar o ralo de volta para a segurança deste nosso lago. Não existe nada para além dessas grades; absolutamente nada!

Íbora percebeu que de nada adiantaria insistir, por que, como da outra vez, Sr Líber fechara-se em conchas e em poucos minutos faria de conta que estava em sono profundo… Com um longo suspiro, que ficava entre contente e desanimado, Íbora despediu-se de Líber e foi contar os ladrilhos do Lago Real, enquanto várias idéias fervilhavam em sua cabecinha…

Um… Dois… Mas como ele conseguiu escapar?… Três… Porque será que o Senhor Líber desistiu?… Quatro… Cinco… Mil duzentos e vinte e nove… Mil duzentos e vinte e nove e um… Ops, errei… Mil duzentos e trinta… Mil trezentos e um… Mil quatrocentos e quarenta e quatro… Dois mil…

Então Íbora depara-se mais uma vez com as grades…

– Pelas barbatanas de São Peixinho Dourado! Mais uma vez essas grades! Deve haver uma maneira de sair daqui… Se eu me apertar um pouquinho talvez consiga!

Apertou-se, apertou-se, e apertou-se mais um pouquinho, e… Nada! Não conseguia passar para além das grades; apenas a sua cauda atravessava e dançava alegremente na ilusão de outros lagos…

Decidiu que não seria detido por quaisquer pequenos empecilhos. Daquele dia em diante começou a prestar muita atenção às aulas de alimentação… Prof. Teobaldo ficou positivamente surpreso enquanto pensava que nada como um bom castigo para domar peixinhos indisciplinados.


Na verdade, Íbora estava aprendendo tudo sobre alimentação saudável. Tudo que pudesse ajudá-lo a manter o corpo em forma e esguio o bastante para atravessar mais do que a própria cauda para além daquele ralo irritante! Resistia bravamente aos excessos nos banquetes, exercitava-se incansavelmente, enquanto  planejava e planejava e planejava…

Passados alguns meses os comentários nos jardins do Lago Real eram os de que Íbora nem mesmo se parecia com um peixe pertencente à nobreza; ele nem se importava por sua cauda não estar mais tão bem cuidada quanto antes.

O que ele queria era: resistência, agilidade, saúde, e flexibilidade.

As fofoqueiras bolhas de água começaram a espalhar comentários de que Íbora estava com sérios problemas, pois havia sido visto fazendo aula de alongamentos enquanto espiava as alunas, e professora, pela janela da Real Escola de Dança Palaciana… É que só as meninas podiam fazer tais aulas.

As bolhas, que sempre foram exageradas e instáveis, repetiam as mesmas fofocas incansavelmente, porque como qualquer ser fofoqueiro, elas, as bolhas, não raciocinavam, apenas espalhavam qualquer coisa que lhes parecesse “espalhável”.


Tanto falaram, tanto fofocaram, que o Senhor Líber também ficou sabendo das supostas maluquices daquele menino… Resolveu ajudá-lo, não sem receio, não sem medo, mas enquanto ajudava Íbora a concretizar os seus sonhos, Líber também sonhava e revivia os próprios sonhos de crescimento e liberdade. Utilizou-se de todo conhecimento que havia adquirido durante o tempo em que havia -ele mesmo- decidido a buscar o grande lago.

Enfim, chegou o dia da partida. Ainda não havia amanhecido quando Líber e Íbora nadaram até as grades e constaram que ele estava preparado para atravessá-las.

Haviam separado provisões bastante para uma semana, pois isso garantiria que Íbora ficasse forte por que, afinal, nenhum dos dois sabia o que realmente existia do outro lado.

Emocionados os dois amigos abraçaram-se… Era chegado o momento da despedida:

– Prometo voltar, Senhor Líber, e então vou levá-lo em segurança para conhecer tudo o que existe lá fora.

– Há muitos anos um grande amigo pronunciou essas mesmas palavras e nunca mais voltou. Espero não estar cometendo uma grande loucura ao ajudá-lo a fazer o mesmo…

– Obrigado, Senhor Líber, eu não teria conseguido sem a sua ajuda, sem os seus sonhos crescendo com os meus. Levo uma parte sua, comigo… Garanto que um dia voltarei trazendo notícias do seu amigo.

Líber viu quando Íbora atravessou o ralo, e como em um passe de mágica desapareceu. Seu coração apertou-se ainda mais enquanto rezava para São Peixinho Dourado e pedia que acompanhasse e protegesse o seu amiguinho.

A-hammm,

Joyce Mobley

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One Comment leave one →
  1. Leticia permalink
    27/03/2010 12:37 pm

    Tanto falaram, tanto fofocaram, que o Senhor Líber também ficou sabendo das supostas maluquices daquele menino…

    ahuhuhuhuhuhuhuhuhuhua

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