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cap.1 -FUTILIDADES ASFIXIANTES-Joyce Mobley

24/03/2010

FUTILIDADES  ASFIXIANTES – Joyce Mobley


Um… Dois… Três… Quatro… Mil… Mil e duzentos… Dois mil… Grades… Grades… Grades! Sempre estas grades!


– Não acredito que viver seja apenas isso. Deve haver alguma coisa para além deste lago cheio de ladrinhos cansativos, além destas grades, além deste ralo! Não aguento mais contar e recontar azulejos! Não aguento mais, e nem posso aceitar, que a vida comece e termine dentro destas paredes, desta vida, desta forma! Deve haver algo para além do ralo… Para onde vai tudo o que desaparece daqui? Só pode ser através deste ralo tão cheio de segredos, e tão proibido.

Íbora é um pequeno peixe que vive no Lago Real de um Palácio Real, de um Rei Real, que não é nada real para os  do lago, muito embora os habitantes do lago vivam conforme realeza, uma vez que pertencem ao rei, mesmo desconhecendo o fato.

Há muitas histórias que cercam o início da vida do Lago Real, mas nunca foi possível ter uma resposta direta; o que é mero reflexo e espelho das irreais vidas das reais realezas que pouco realizam.


Como real reprodução, a vida no lago segue o calendário festivo do palácio: muitos banquetes, muitas festas, muitos bailes, muitos, muito, de muitos nadas. Muita futilidade, muitas mentiras, muitas conversas que nada esclarecem, mas que soam como se estivessem dizendo alguma coisa – que nunca estão.

Nada disso parece atrair o pequeno Íbora, muito pelo contrário, a futilidade e pompa parecem fazer crescer a profunda insatisfação com a real desordem da ordem irreal da realeza. Para sobreviver Íbora está sempre a sonhar, mesmo acordado, com um enorme lago que de tão enorme nunca chega a esbarrar nos ladrilhos que costuma contar para passar o tempo, enquanto ordena os pensamentos.

Acorda -de tais sonhos- com a sensação de saudades de um lugar que conhece, mas não conhece, onde já esteve, mas nunca esteve… A única certeza que traz – ao acordar- é a de que a viver é bem mais do que repetir-se em infindáveis conversas sobre o banquete de ontem, o baile de amanhã, a pomposa cauda de fulano, ou as barbatanas de sicrano.

Os outros peixes riem-se dele, e, de alguma maneira, preocupam-se com o peixinho tão estranho que parece não adaptar-se, e que consegue ter pensamentos ainda mais estranhos do que a mania de contar ladrilhos.

Desde muito criança, quando assistia às insuportáveis aulas de reais boas maneiras palacianas, Íbora parecia fugir com os próprios pensamentos para outros lugares, outras aulas, outros aprendizados, que não aqueles, enquanto o Prof. Teobaldo prosseguia com as suas lições:

– O bom peixe é aquele que consegue abocanhar o maior pedaço de comida.

– Um peixe real deve sempre esconder os alimentos para que os outros peixes não os encontrem, mesmo quando não aguenta mais comer, pois pertencer à realeza exige que tenhamos estoques excedentes que se estraguem antes que peixes plebeus os comam.

Enquanto falava, Prof. Teobaldo abocanhava qualquer coisa que se movesse à sua frente. Quando percebia que havia abocanhado algo “não comestível”, abria bem a boca e a cuspia o mais distante possível – esta é uma regra da real educação e não deve ser questionada. Entre larvas, mosquitos, cuspidas, Prof.Teobaldo perdia a sequência dos próprios pensamentos, e dizia:

– Onde é mesmo que estávamos, classe?

Íbora aproveitava estes momentos de pigarros, e cuspidelas, para fazer as perguntas que voavam (ou nadavam) pela sua mente. Claro que fazia todas as perguntas ao mesmo tempo, por que só assim era possível formulá-las antes que seu professor o mandasse para a diretoria por haver questionado o inquestionável, por haver proferido em voz alta, o que nem mesmo deveria ser pensado!

– Professor, é possível que haja outros lagos além do nosso?

– Para onde vão as águas que saem através do ralo?

– Para onde vão os peixes que desaparecem do lago?

– De onde nós viemos?

– Porque devo guardar e esconder comida que vai apodrecer e deixar que outros peixes morram de fome?

Professor Teobaldo trocava de cor tantas vezes durante as perguntas de Íbora, que talvez ele pertencesse a alguma espécie de peixe camaleão… Nunca se soube a resposta para esse estado alterado de cores, mas também não tem importância por que isso não fazia parte do protocolo de reais importâncias reais.

– Ííííííbora, seu peixinho indisciplinado! Como ousa interromper o refluxo, digo, o fluxo de meus pensamentos?

– Eu não interrompi Prof. Teobaldo, o senhor estava engasgado com as pontiagudas asas de um mosquito inadequado para alimentação, como o senhor mesmo nos ensinou.

– Íiiiibora, seu peixinho impertinente! Como ousa sugerir que eu, Honorável Inquestionável Prof. Teobaldo Teófilo Tetônico de Téfilus Téus, possa haver engasgado com um mero mosquito inadequado?! Acaso está a sugerir que não me alimentei dos melhores mosquitos que me são servidos antes de vir à Real Escola Palaciana? E, se houvesse cometido tamanha deselegância, como ousa sugerir que eu pudesse me enganar?!

– Honorável Inquestionável Prof. Teobaldo, o senhor poderia responder às perguntas que lhe fiz?

– Perguntas? Isso não são perguntas, são uma afronta à real ordem imutável que rege o desequilíbrio em permanente equilíbrio e ordem!

Os outros peixinhos, alunos como Íbora, puseram-se a rir aumentando ainda mais o multicolorido do professor, que prontamente intervém:

– Silêncio, classe! Íbora retire-se e apresente-se imediatamente à real diretoria da Real Escola Palaciana!

Nosso amigo que já conhecia muito bem esse percurso reuniu seus pertences, e retirou-se deixando a enfadonha aula, assim como o igualmente enfadonho professor engolidor de mosquitos de asas pontiagudas. Ao invés de seguir as correntezas – que o levariam diretamente à diretoria- decidiu tomar outro caminho…

Havia no lago um peixe muito idoso com quem Íbora gostava de conversar. Chamava-se Líber e era, por todos, considerado como um pouco doente das idéias. Entretanto, era tratado com certa deferência, pois dele muitas histórias eram cochichadas pelos cantos, sem que ninguém nunca soubesse da real veracidade. Real veracidade?

Veracidade nunca é real; esta é mais uma das regras – que no Lago Real – que jamais deve ser ignorada!

Certa vez Líber havia contado à Íbora que, quando jovem, conhecera, e fora muito amigo, de um peixe que afirmava existir um lago sem paredes, sem ladrilhos, sem nada que os aprisionassem. Dissera ainda que mesmo o maior peixe, com a mais longa, e bem cuidada cauda, não passava de uma partícula ínfima de uma só asa do menor mosquito já visto. Logo depois de haver revelado essa maravilhosa possibilidade, Sr Líber caíra no sono, e Íbora não conseguira extrair-lhe nem mais um único detalhezinho…

A-hammm,

Joyce Mobley

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