Skip to content

cap. 11 – O BLOCO DOS SONHOS -Joyce Mobley

25/03/2010

O BLOCO DOS SONHOS – Joyce Mobley


Estranhamente contraditório sentir-se agradecido por uma agressão,

mas também era estranho perceber o quanto seus sentimentos podiam enganá-lo...


Íbora parecia poder ouvir as suas próprias palavras; sentir mais uma vez as emoções de anos atrás…

– O que é uma isca? No Lago Real, de onde venho, não há iscas… Não compreendo porque você repete tantas vezes a mesma pergunta…

Como era nítida a lembrança de haver ficado sem a resposta, e de como Lufos ordenou que lhe trouxessem comida! Delicioso… Deliciosa… Delicioso banquete, e deliciosa a sensação de finalmente o terem levado para um quarto, onde dormiu com a sensação de estar sendo ninado por sua mãe…

No dia seguinte, ao primeiro em que amanhecera no Grande Lago, Lufos finalmente explicou  o que eram iscas, e como deveria evitá-las. Íbora percebeu o risco que havia corrido, e sentiu-se grato pelos empurrões que recebera. Era estranhamente contraditório sentir-se agradecido por uma agressão, mas também era estranho perceber o quanto seus sentimentos podiam enganá-lo…

Lembrou-se do quanto ficara decepcionado, triste, só para depois sentir-se profundamente grato por aquilo que julgara precipitadamente… Fora salvos com dois, ou três, grandes empurrões –  de engolir, ou ser engolido, por uma isca!

Mais uma vez Íbora revivia aquele primeiro encontro…

– Grande Mestre, obrigado por me haver salvado desse perigo mortal! Na verdade estava sendo salvo por vós, enquanto me sentia agredido… Jamais poderia imaginar! O que posso fazer para agradecer-vos condignamente, Grande Mestre?

Íbora enrolara-se nas águas, e agora se enrolava na própria língua!  Como poderia haver imaginado que aquelas aulas (chatíssimas) de falar complicado fossem lhe fazer falta?

Sempre considerara absurdas as aulas de reais complicações gramaticais, e eram tão enfadonhas… Chegara à conclusão de que não existiam lições dispensáveis… Podiam ser muito chatas de serem aprendidas, mais chatas do que serem ensinadas, porque o… O… O?

Como era mesmo o nome do professor? Magnânimo Magnífico? Honorável Venerável? Blábláblá Prof. Teobaldo? Enfim, o professor, fosse qual fosse o seu Real Nome Real, parecia gostar muito das aulas de reais complicações gramaticais!

Lufos, e outros peixões, e peixinhos, puseram-se a rir da estranha fala, daquele estranho peixinho enrolado. Íbora, que pensava haver errado na conjugação das reais complicações verbais, foi interrompido por Lufos:

– Grande Mestre? Eu? Não sou Grande Mestre, e nem há – apenas- um Mestre…

– Não?! Mas… Como não? Perguntou Íbora que havia se acostumado ao Inquestionável Honorável Magnânimo Magnífico Real Prof. Teobaldo.

– Todos somos mestres, e todos somos aprendizes.

Íbora sentia-se cada vez mais confuso… Isso era contra tudo que aprendera até então, muito embora não soubesse muito bem o quê havia aprendido… O que havia para ser aprendido naquelas enfadonhas aulas?

Nem bem completou esse pensamento, e sentiu que mais uma vez seus pensamentos o enganavam! Lá dentro, Íbora, ouviu a sua própria voz que lhe dizia: Todos os ensinamentos são válidos, mesmo aqueles que nos parecem tolos!

Ao menos neste momento, Íbora, vira-se livre da necessidade de continuar a enrolar a língua, e pode falar livremente:

– O Senhor está dizendo…

Mais uma vez todos se riram, e Íbora mais uma vez ficara sem compreender qual seria a piada!

– Não sou senhor, disse Lufos, imagino que tenhamos a mesma idade. Pertencemos a espécies diferentes, e, talvez, por ser muito maior que você…

Íbora ficara tão feliz por saber que eram da mesma idade, que logo interrompeu o novo amigo, bombardeando-o com perguntas que pareciam não ter fim! Foi igualmente bombardeado com perguntas, que lhe pareciam sem fim… Era mais gostoso ouvir o que ainda não conhecia, do que contar o que já conhecia… Quem diria que ele mesmo viria a ser um Mestre…

Nosso peixinho deu um grande suspiro enquanto voltava para o presente… Guardou rapidamente a sua caneta, e bloco de sonhos, porque já estava quase atrasado para a aula que deveria ministrar… Mais um pensamento reflexo fantasma! Atrasado? Guardar rapidamente?

Pressa não caminha ao lado da sabedoria…

Íbora respirou profundamente (ele sempre fazia isso quando reaprendia uma das próprias lições), e nadou calmamente até o “ponto do aprendizado”… É que ali, onde um dia ele pensara ser o Grande Lago, era apenas um rio. Naquele rio as aulas eram dadas em pontos de aprendizado; não havia uma Real Escola  Real Do Rio… O que importava era o conteúdo, e não as aparências.

Aprendera que conteúdos podem ser dados, e aprendidos, em quaisquer pontos de encontros; bastando que marcassem a próxima aula ao final de cada aula. As aulas eram inspiradas em novos e antigos acontecimentos, novas e antigas sabedorias, e, por isso mesmo, eram ministradas em qualquer ponto… Cada ponto de encontro já era – em si mesmo – uma lição.

Enquanto nadava para o ponto de encontro, Íbora recordava-se das primeiras aulas que recebera no rio. A primeira, e surpreendente aula:

“Aqui não é o Grande Lago”

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: