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cap.12 -MONSTROS E FANTASMAS INTERNOS- Joyce Damy Mobley

25/03/2010

MONSTROS E FANTASMAS INTERNOS – Joyce  Damy Mobley

“Fantasmas e Monstros são reais… Eles vivem dentro de nós e, às vezes, nos vencem!”

Íbora não podia acreditar naquelas palavras! Como poderia não ser o Grande Lago? Isso não fazia o menor sentido… Havia percorrido tantos caminhos, só para terminar em outro lago? Mais um lago com margens sufocantes? Mais ladrilhos para contar? Não fora para isso que se preparara por tanto tempo… Não fora para isso que sonhara tanto, planejara tanto…


Você conhece silêncio mudo?
É… É com você mesmo que está lendo… Conhece?
Silêncio mudo não é só mudo, também não vê, e não ouve… Entendeu? Okay, então vamos voltar para a nossa história.

Nosso peixinho mergulhou em um silêncio mudo… Desde dentro desse silêncio não ouvia nada do que lhe perguntavam… Só ouvia o som das suas próprias dúvidas; de suas negações; de suas decepções… Nos seus pensamentos martelavam as palavras que um dia Líber lhe dissera:

“Fantasmas e Monstros são reais… Eles vivem dentro de nós e, às vezes, nos vencem!”.

Aquelas palavras faziam o maior sentido! Era exatamente o que estava a acontecer… Íbora sacudiu-se (uma sacudida daquelas que falam que a morte passou por perto), e sacudiu-se de novo, e com força para espantar qualquer sensação de morte da alma!

Em frações de segundos, mais uma vez, sua vida parecia passar por todas as suas escamas e então se lembrou: “A aventura é o caminho”! Não iria invalidar tudo o que vivera, sonhara, conquistara, crescera, apenas por não ser o Grande Lago… Esse pensamento era dolorido, porém muito menos dolorido do que mergulhar na escuridão muda e silenciosa que brigava por mais espaço dentro dele… Ao longe, bem ao longe, ouviu um som que não vinha dos seus próprios pensamentos…

– Aqui não é o Grande Lago, repetiu Lufos, com um enorme sorriso nos lábios.

Íbora piscou, piscou, sacudiu de vez aqueles pensamentos, e perguntou:

– Não? (é que mesmo sacudindo tudo, leva um tempinho pra voltar desse lugar de fantasmas e monstros internos)

– Não! Repetiram em coro quase todos os peixes, peixinhos, e peixões.

Desta vez ele acordou, beeemmmm acordado, do seu silêncio mudo!

– Se não é o Grande Lago, o que é isso? Onde estamos? De onde vocês vieram? Para onde vamos?

Enquanto perguntava, fazia aquela cara de olho bem aberto, boca abrindo e fechando, e olhava para todos… Que por algum motivo o olhavam com os mesmos olhos arregalados, boca aberta, e cara de ponto de interrogação… Então chegaram as bolhas fofoqueiras (você pensou que elas tinham ficado no lago? Não ficaram não… Bolhas fofoqueiras são praga resistente e poderosa, dizem que elas sobrevivem até mesmo sem nem uma gotinha de água!)…

Em poucos segundos rio abaixo, rio acima, ouvia-se um vrum vrum vrum, e zum zum zum, que se espalhava em diferentes tons, diferentes linguagens, diferentes dialetos, mas significavam:

– De onde viemos?

– Quem somos?

– Para onde vamos?

Você já ouviu isso em algum lugar? Eu também! Pra você ver como fofoca se espalha até pelo tempo, e pelo ar… Ô coisinha resistente essa tal de praga da fofoca! Nem se sabe quem foi a primeira pessoa, ou peixe, ou ave, ou… Ou… Ou… Que fez essa pergunta… Uns dizem que foi fulano, outros dizem: não fui eu, não fui eu, não fui eu! De tempos em tempos dizem que foi beeemmmm você quem começou com essa fofocaiada de perguntas!

– Quem, eu? Eu não! Mas, dizem, não vou dizer quem disse, mas… Dizem (as más línguas) que foi você mesmo… Você que está lendo isso agora, e não se esconde não porque as bolhas fofoqueiras já leram isso…

Melhor retomar a nossa história porque não chegaremos a nenhuma conclusão e as bolhas fofoqueiras vão acabar roubando o palco…

– SILÊNCIO!

Em segundos Lufos conseguira parar com aquele murmúrio que tomava conta de tudo; é que a sua PODEROSA VOZ era mais alta do que as fofocas, mas só para garantir ele berrou mais uma vez:

– S-I-L-Ê-N-C-I-O!! – e continuou – Agora que estamos todos quietos, responda  quem é você, e de onde você veio, e para onde você vai, seu… Seu… Seu peixinho embolado e enrolado!

Percebendo que Lufos estava irritado, Íbora logo conseguiu as respostas:

– Sou Íbora Buscador do Grande Lago. Vim do Real Lago Real Inquestionável e Sufocante. Vou (ou ia) em Busca do Grande Lago!

Nosso amigo estava feliz da vida com as próprias respostas… Nem mesmo ele sabia que sabia, tanto assim! Mal acabou de falar e mais uma vez instalou-se a confusão, de onde podia- se distinguir palavras soltas:

– Realeza

– Grande Lago

– Lago Real do Rei Inquestionável e da Rainha Sufocante…

– E é para lá que vamos?

– Quem vai?

– Você vai?

– Eu não vou, vai você!

– Eu também vou…

– Não vai não, meu filho, fica quieto aqui com a mamãe!

Desta vez foi Íbora quem gritou:

– Calem-se já!

Era a segunda vez que se admirava do próprio poder: A primeira, por saber todas as respostas, muito embora lá no fundo não estivesse assim tão certo das respostas que dera; a segunda, com o poder de sua voz, de calar a todos, até aquelas últimas bolhas fofoqueiras que seus olhos podiam ver!

Fez-se um grande silêncio (não era um silêncio mudo, era outro tipo de silêncio: silêncio atento), e Íbora continuou:

– Respirem fundo… Beeemmmm fuuunnnndo… Três vezes… Assim… Agora alinhem a espinha, e as espinhas… Escamas… Barbatanas… Caudas… Nadadeiras… Isso mesmo… Agora estiquem o máximo que conseguirem… Assim… Respirem fundo mais três vezes…

Todos, como que hipnotizados, obedeciam às consignas de Íbora, que completou:

– Agora sim… Podemos continuar a nossa conversa…

É que Íbora já aprendera que não é possível conversar quando todos estão a gritar… Ninguém ouve nada, todos falam, e respondem a palavras desconexas… Já sabia que ânimos exaltados não são bons companheiros para quaisquer tipos de conversas, e que o melhor a se fazer é respirar fundo, aquietar os medos, e receios, e raivas, e dúvidas falantes… E… Deixar para falar em outro momento!

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2 Comentários leave one →
  1. Nolos permalink
    31/03/2010 7:55 pm

    Em frações de segundos, mais uma vez, sua vida parecia passar por todas as suas escamas e então se lembrou: “A aventura é o caminho”! Não iria invalidar tudo o que vivera, sonhara, conquistara, crescera, apenas por não ser o Grande Lago… Esse pensamento era dolorido, porém muito menos dolorido do que mergulhar na escuridão muda e silenciosa que brigava por mais espaço dentro dele… Ao longe, bem ao longe, ouviu um som que não vinha dos seus próprios pensamentos…

  2. Nolos permalink
    31/03/2010 7:52 pm

    Nosso peixinho mergulhou em um silêncio mudo… Desde dentro desse silêncio não ouvia nada do que lhe perguntavam… Só ouvia o som das suas próprias dúvidas; de suas negações; de suas decepções… Nos seus pensamentos martelavam as palavras que um dia Líber lhe dissera:

    “Fantasmas e Monstros são reais… Eles vivem dentro de nós e, às vezes, nos vencem!”.

    Please…

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