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cap. 16 – CARINHO GOSTOSO – JOYCE DAMY MOBLEY

25/03/2010

– CARINHO GOSTOSO – JOYCE DAMY MOBLEY

– E é por isso que você ainda não pode fazer parte da expedição que leva até as margens do rio, meu filho.

– Mas eu já sei nadar faz um tempão… Já nasci sabendo! Olha só como eu sei virar pirueta, mãe!

Enquanto Inkié-tus girava para um lado, e para o outro, fazia piruetas, e cambalhotas, e toda série de estripulias que só ele era capaz de inventar, todos riam e compartilhavam a alegria daquela criança tão… Tão… Tão inkiéta, digo, inquieta (até eu me distraí com esse peixinho Inkié-tus!)… De tanto virar, e pular, acabou por trombar contra Lufos, que o segurou acolhido (segurar acolhido é como um abraço protetor, que nos pára e ainda faz carinho, entendeu?) antes que ele batesse contra uma pedra.

– Oooops, desculpa seu Mestre Lufos da Voz de Trovão!

Inkié-tus, que tinha tanta dificuldade de se calar quanto de ficar quieto por mais que alguns minutos continuou:

– Essa aula tá meio chata, porque  você e o Mestre Íbora ficam aí com essa conversa de ser sentida, e eu gosto mais de conversa de ser escutada, ou de ser falada, e eu já sei que vou acabar ficando de castigo sem ter feito nadinha de errado!

Todos, sem nenhuma exceção, riam da indignação com que Inkié-tus falava…

– Não sei do que vocês estão rindo, não acho a menor graça, e quem vai ficar de castigo sou eu, e a culpa é deles que ficam aí falando na tal da língua sentida. Sentida de chata, isso sim!

– Inkié-tus! Pelo amor de São Peixão, fica quieto e volta prá cá, já já!

– Tá bom, tá bem, eu não fiz nada, mas a culpa é sempre minha!

Nem mesmo a Sra. Kálati, mãe de Inkié-tus, pôde evitar uma gostosa gargalhada diante de tantas palavras atropeladas que seu filho era capaz de falar, em um só fôlego!

– Está certo, criança, disse Íbora, e começou a reproduzir o diálogo que tivera com Lufos nos dias em que se agarraram às pedras:

– Não é possível, Lufos! Não fiz todo este caminho para acabar preso a estas pedras! Isto é ainda pior do que os dias em que contava ladrilhos!

– E o que você sugere, Real Peixinho enrolado? Eu nem estaria aqui preso às pedras se você não tivesse inventado de fluir com as corredeiras!

– E vai dizer que você também não gostou enquanto estávamos nos divertindo?

– Estávamos, Íbora! Estávamos, mas não estamos mais!

Íbora, que já estava ficando com câimbras na nadadeira esquerda, disse:

– Vou me soltar! O máximo que pode acontecer é batermos em outras pedras, e engolir mais água do que precisamos… E engasgar? Não quero nem saber Lufos, vou me soltar e é agora!

– Mas não vamos nem contar até três?

– Você tem cada ideia! Tá vamos contar, mas estou avisando que vou me soltar… Eu começo!

– Então começa…

– Um… (Íbora)

– Dois? (Lufos)

– Trêêêêsssssssssss!

Íbora soltou-se enquanto gritava “três”, Lufos piscava, e pensava que faltou dizer: E jááááá… Então gritou:

– Eeeeeee jááááááááá glu glu glu (glu glu glu é a água que ele está engolindo, tá?) gluuuuu….. (escrever deveria vir com efeitos sonoros…)

Pensa que há muito que contar sobre debater-se, engolir, água, e sei lá mais o quê nas corredeiras? Não tem não, e é porque nem dá tempo de pensar! Eu já disse que há momentos para reflexão e outros para ação…  Ah, tá… Foi o Íbora quem disse… Quem está falando agora? Eu, eu que estou falando com você que está lendo… Eita, presta atenção! Tá bom, tá bem, vocês parecem o Inkié-tus, já volto para os peixinhos.

– Lufos?

– Lufos, onde está você?

Íbora, que não tinha a menor ideia de onde estava, procurava por Lufos…

– Lúúúúúúúfffffoooossss! (é que ele já estava meio desesperado, além de tonto… mas as águas já eram calminhas, calminhas…)

Lufos, que havia desmaiado, assim como Íbora, e ainda cuspia o excesso de água, e tossia o que não conseguia cuspir:

– O que é seu peixinho parente de jerico?! Tem mais alguma idéia mirabolante?

Íbora estava tão feliz por ver seu amigo, que nem se importou com o improvável parentesco com jerico…

– Eu não disse que o melhor seria nos soltarmos?

– E você não sabe que tem que falar: eeeeeeee jáááá, depois de contar até três?!

– Mas, lá no Real Lago Real…

– Não quero ouvir nada sobre nenhum Real Lago Real! Real é a vontade que estou de torcer o seu pescoço, mas nem pescoço você tem!

– Onde nós estamos? Perguntou Íbora…

– E você acha mesmo que eu sei? Você acha mesmo que eu seria tonto o bastante para vir até aqui? Você pensa que só porque nasci no rio, só porque sei chegar até as margens, só porque sei sobre nadar contra, e à favor, eu sei de tudo?

– Acho que sim, ou achava! Quem nasceu aqui foi você!

– Eu não nasci aqui, nasci lá na curva 2234.5 e só deveria nadar até a curva 122234.5!

Lufos estava com os olhos marejados de lágrimas (peixe também chora, sabia?), pensava que nunca mais poderia voltar para a curva do rio em que nascera… Íbora abraçou o amigo, e por algum tempo ficou quieto enquanto tentava sentir aquele novo lugar.

– Estou com fome, vamos procurar algo para comer!

– Também estou faminto, disse Íbora, aventuras sempre me deixam faminto…

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