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cap.19 – ACASO FALEI EM CULPA? – JOYCE DAMY MOBLEY

25/03/2010

ACASO FALEI EM CULPA?- JOYCE  DAMY MOBLEY


Não me chame, não me seduza, não me cative, não me nada!

– Acaso eu falei em culpa?

– Não falou, mas está me enrolando pra dizer que não é SUA a culpa por estarmos nesta situação!

– E não sou mesmo! Não sou culpado, também não sou responsável, por ESTARMOS nesta situação! Eu apenas escolhi entrar nas corredeiras, não o obriguei a me seguir…

Lufos, que estava zangadíssimo, interrompeu Íbora:

– Foi você que me seduziu, ou cativou, para segui-lo nas corredeiras!

– Mentira!

– Quer dizer que você não me arrastou até aqui?!

– Exatamente isso! E eu nunca mais vou chamar você pra ir a qualquer lugar comigo! Eu não arrastei você, eu não amarrei você, eu não obriguei você a me seguir!

Lufos, que já tinha uma voz que mais se assemelhava a um trombone – quando calmo – triplicava o poder do alcance das suas palavras (não por sabedoria, mas por gritaria), dispensava a ajuda de qualquer bolha fofoqueira, porque em todos os rios podiam ouvir as suas palavras…

– É isso mesmo! Não me chame, não me seduza, não me cative, não me nada! Quer saber?  Vai nadar bem longe de mim!

– Pois é exatamente isso que vou fazer, porque você está mais insuportável do que já é!

Viraram as costas um para o outro, e não falaram mais nada por algumas horas…

– Lufos…

– O que é Íbora? Vai falar mais alguma besteira?

– Desculpa por haver brigado com você…

– Só por haver brigado comigo?

– Só…

– Não vai se desculpar por ter me cativado para acompanhar você?

– Não!

– Então vá catar girinos!

Mais uma vez deram as costas um para o outro e permaneceram em silêncio…

Silêncio de palavras, mas não silêncio de pensamentos, porque cada um deles pensava no quanto estava sendo injustiçado…

Depois de mais algumas horas:

– Íbora?

– O que é Lufos? Vai me mandar catar girinos? Vá você catar girinos, e catar piolho da cabeça de um peixe!

– Não enche Íbora!

– Não enche você!

Parecia que não chegariam a um acordo, mas nem sempre é preciso chegar a um acordo… Às vezes é melhor “anotar internamente” a opinião do outro, também a própria opinião, para pensar, e depois conversar num momento menos fervilhante…

Depois de um tempo, que nem eu sei qual:

– Não há garantias na vida, disse Íbora, viver é correr riscos…

– E viver perto de você é correr mais riscos ainda! Eu jamais estaria nesta situação se não fosse por você!

Íbora, que já se acalmara o bastante para não dar ouvidos às provocações de Lufos, continuou:

– Foi uma escolha… Poderíamos estar aqui por havermos sido carregados por uma correnteza mais forte que nos levasse até as corredeiras… Você não pode garantir que não estaria aqui, desta forma, neste exato momento, vivendo o que estamos vivendo, por qualquer outro motivo, que não o meu desejo de experimentar as corredeiras, e a sua escolha de vir comigo… Não é justo me responsabilizar por isso.

– Talvez não seja justo, mas eu estou com irritado, cansado! Não sei onde estou, e nem você que é metido a desbravador sabe responder isso! Sabe ainda menos como sair daqui e voltar pra casa!

– Como poderia saber se não fazemos outra coisa além de discutir?

– Não estou vendo nenhum peixe, nem mesmo uma bolha fofoqueira… Com quem mais você espera que eu brigue Senhor Íbora Buscador do Grande Lago?!

– Com ninguém, nem com você mesmo…  Estamos perdidos, mas estamos vivos… Isso poderia ter acontecido por qualquer motivo… E aconteceu… Podemos ficar discutindo as responsabilidades, podemos assumir que estamos juntos nesta confusão, podemos transformar a confusão em um momento inesperado, podemos explorar esta nova realidade…

-Simples assim, não é Íbora?

-Nem um pouco simples, mas real (sem nenhuma realeza, é claro)…

-Qual é a sua sugestão?

– Tenho até medo de sugerir alguma coisa, e depois você me responsabilizar!

– Então não sugere nada!

– Não sugiro mesmo!

Parece que Íbora não estava tão calmo quanto pensou… Talvez não estivesse calmo o bastante para conversar com Lufos…  Novamente calaram a boca, viraram as costas um para o outro…

Agora sou eu quem está falando, tá? Esses dois peixinhos já estão me enchendo a paciência! Vou anoitecer essa história pra ver se eles dormem e acordam com a cabeça no lugar!

Anoiteceu, e os dois amigos escolheram um lugar para dormirem em segurança… Não falaram nem mais uma palavra, mas seguiram juntos para o ponto escolhido, e, de costas um para o outro, adormeceram…

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One Comment leave one →
  1. Cdinha permalink
    31/03/2010 7:34 pm

    Parecia que não chegariam a um acordo, mas nem sempre é preciso chegar a um acordo… Às vezes é melhor “anotar internamente” a opinião do outro, também a própria opinião, para pensar, e depois conversar num momento menos fervilhante…

    foi uma coisa muito importante aprender isso comvc
    bjs

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