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cap.20 – SEM TEMPO PARA VÍRGULAS!- JOYCE DAMY MOBLEY

25/03/2010

SEM TEMPO PARA VÍRGULAS – JOYCE  DAMY MOBLEY

Ele estava num daqueles momentos preciosos em que falamos alto para podermos ouvir nossas próprias palavras.

Sabe aquele sono que não é muito sono? Não sei se você já teve um desses, eu tenho vários! Já cheguei à conclusão, muito embora minhas conclusões não sejam conclusivas o bastante para estarem fechadas a outras futuras conclusões, mas cheguei à conclusão que esses sonhos chatos acontecem quando deixo passar alguma coisa que ficou pendente, pendurada em algum canto de mim mesma sem que eu pensasse o  bastante, por displicência ou um cansaço momentâneo ou mera distração…

Tá, não precisa dizer que passei cinco ou seis dias sem deixar que Íbora falasse para então chegar aqui e começar a falar, mas eu só estava explicando mais ou menos, mesmo que mais para menos do que para mais.

Íbora teve uma noite agitada! Por diversas vezes recordava-se da frase que dissera à Lufos: Estamos perdidos, mas estamos vivos… Perdidos perdidos perdidos; vivos vivos vivos (assim mesmo sem vírgulas, porque como na vida também nos sonhos muitas coisas acontecem tão rapidamente que nem há tempo para vírgula, entendeu?). Voltando: vivos vivos vivos – perdidos perdidos perdidos – MAS MAS MAS – perdidos, mas vivos? Perdidos, mas vivos… Perdidos, mas vivos!  Perdidos, mas vivos?!

Íbora acordou, não fez nenhum de seus exercícios matinais e sacudiu Lufos que ainda dormia…

– Lufos… (ele disse quase sussurrando)

– Lufos?  (ele disse menos sussurrado)

– Lufos! (nada sussurrado)

– Lúúúúfos! (desta vez ele gritou mesmo!)

– Que susto! Precisa me acordar berrando?

Íbora nem respondem à pergunta e continuou:

– Eu já sei onde estava e está o erro!

– Quer dizer que já sabe voltar pra casa?

– Não, Lufos, ainda não sei. Sei que errei quando lhe disse “estamos perdidos, mas estamos vivos…” Não é assim que conseguiremos absolutamente nada! Não há lugar para: MAS… A frase correta, ou o estado de espírito correto é: Estamos perdidos! Estamos vivos! Ou ainda: Estamos perdidos e estamos vivos!

– Você é muito maluco Íbora! Que diferença faz esse, mas, ou dividir a frase em duas, ou mesmo colocar um E entre as duas frases?

– Toda a diferença, Lufos! Estamos perdidos, mas estamos vivos… É quase um agradecimento impotente e anêmico por sobrevivermos com restos… Claro, porque quem gosta de restos é lixeira!

– Você deve estar com alguma contusão mental, e nenhuma conclusão e muita confusão! Me deixa acordar direito antes de começar a falar sem parar.

Íbora esperou por um minuto, e:

– Já acabou de acordar?

Não esperou pela resposta e continuou a falar. Ele estava num daqueles momentos preciosos em que falamos alto para podermos ouvir nossas próprias palavras e usarmos mais um sentido (a audição) para entendermos melhor, aquilo que já entendemos em algum nível de nós.

– Presta atenção, Lufos, desde que aqui chegamos não fizemos outra coisa que não fosse brigar! Você me fez acusações injustas, eu me defendi das acusações que me fez, e nem mesmo me dei conta de que você apenas precisava explodir para poder se acalmar…

E continuou:

– Nem sei por que me defendi das suas acusações… Talvez porque estivesse tonto depois das corredeiras, não sei… Não faz diferença  se você precisa me acusar de o haver seduzido, ou cativado, para me acompanhar nesta aventura. Não muda o fato de estarmos aqui… É o MAS que faz toda a diferença! Enquanto mantivermos o MAS entre as duas frases: Estamos perdidos, mas estamos vivo… Seremos vítimas agradecidas! Entendeu agora?

– Não, Íbora, não entendi, e você -mais uma vez- está começando a me irritar.

– Ótimos Lufos aproveita essa sua irritação porque ela é uma boa energia se você souber como utilizá-la sem perder-se a voltear em torno da própria cauda! Use a sua irritação para sair daí e vir comigo; isto é um convite e não uma sedução. Estou a afirmar que estou indo porque já me cansei de ficar parado aqui a me lamentar e lamuriar em sua companhia.

– Posso saber aonde você vai?

– Pode sim: Vou para qualquer lugar que não seja ficar parado aqui! Vou descobrir onde estou, vou explorar até que não esteja perdido. Vou VIVER sem um MAS no meio do meu caminho. Íbora nadava alegremente enquanto falava mais alto para que Lufos pudesse ouvi-lo enquanto se distanciava do amigo… Lufos pareceu acordar das próprias lamúrias e gritou:

– Espera por mim!

– Não espero não, aperte o seu nado e chegue até onde estou para que possamos nadar lado a lado.

Não foi muito difícil e nem exigiu tanto esforço de Lufos para alcançar Íbora, afinal ele pertencia a uma espécie de peixes que era fisicamente muito maior do que Íbora! Também, não foi muito difícil chegar a um lugar onde havia outros peixes… É que muitas vezes as lamúrias nos impedem de ver o que está logo ali à diante, quase no nosso nariz!

Ao se aproximarem mais, puderam perceber que era um dos pontos de encontros para aulas… Todos estavam tão atentos que não perceberam, ou simplesmente ignoraram a presença dos dois amigos. Uma tartaruga antiga, quase tão antiga quanto a antiguidade, tinha a palavra e parecia responder a uma pergunta que fora feita por um dos alunos mestres.

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