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cap.22 – ABRAÇA A ALMA – JOYCE DAMY MOBLEY

25/03/2010

– ABRAÇA A ALMA – JOYCE  DAMY MOBLEY


Íbora falava pausadamente, olhava profundamente para o seu amigo e via mais além do que gostaria de ver…  Sabia que Lufos lutava entre o amor de amigo, o medo de ser honesto, a facilidade da hipocrisia.

Lufos pensava, e repensava sobre o que poderia ter acontecido se as águas do Grande Lago não fossem salgadas… Sentia-se honestamente triste por seu amigo, pois sabia o quanto ele lutara para encontrar um lago sem margens; sabia o quanto ele desejara e tudo o que fizera para tornar tal sonho (louco, na concepção de Lufos) realidade. Sabia, até mesmo, que só o havia conhecido em função da busca de Íbora. Sentia-se feliz por tê-lo como amigo, mesmo que ele o metesse em tantas confusões, mesmo que por causa da curiosidade -aparentemente infindável- de Íbora, ele, Lufos, agora não soubesse como voltar para casa.

Íbora parecia distante, quieto… Tão incomum que ele ficasse quieto por tanto tempo, ao menos naqueles dias, naquele momento de buscas, inquietudes, movimentos internos e externos. Lufos o observava enquanto observava a si mesmo: fora verdadeiro o abraço que dera no seu amigo – para confortá-lo quando Mestra PãCiência dissera que seria impossível viver no Grande Lago- também um tanto hipócrita, já que se sentira feliz  por saber que seria um sonho impossível de concretizar…

– Se não fosse impossível sobreviver no Grande lago, você teria ido e me deixado aqui, Íbora?

Nosso amigo olhou profundamente para Lufos… Tão profundamente quanto Mestra PãCiência o olhara… Por mais brincalhão e agitado que Íbora fosse também tinha um lado profundo, reflexivo, e seu olhar, por vezes, parecia atravessar, perpassar, vasculhar a alma dos peixes… Era um olhar difícil de sustentar, assim como o olhar da Mestra; poucos eram aqueles que sustentavam esse olhar… Poucos os que se entregavam sem medo de serem desnudados internamente. Muitos desviavam o olhar, outros tantos pediam para que não os olhassem assim… Havia os que se afastavam, também os que mantinham o olhar por mero desafio, sem entrega, sem recepção, sem troca, sem jamais conseguirem atinar para tantas coisas que havia naquele olhar…

– E você, Lufos, teria pedido para que eu ficasse, mesmo sabendo que eu seria infeliz, mesmo sabendo que eu me reduziria a pedaços de mim?

Íbora falava pausadamente, olhava profundamente para o seu amigo e via mais além do que gostaria de ver…  Sabia que Lufos lutava entre o amor de amigo, o medo de ser honesto, a facilidade da hipocrisia.

– Eu só quero protegê-lo, Íbora, quero que você se dê conta de que esse seu sonho de buscar o Grande Lago é um sonho da sua infância… Mesmo que você pudesse ir até lá, mesmo que você pudesse  viver no Grande Lago, você estaria deixando o certo pelo duvidoso! Essa busca sem fim é uma bobagem que só o impede de viver, de dar valor ao que você tem. Dar valor a todos que o amam! Quem lhe garante que o Grande Lago seria tão receptivo, tão repleto de segurança, de carinho, de amizade que você mesmo construiu?

– Ninguém Lufos… Nada e ninguém podem me garantir quaisquer coisas que você tão sabiamente me aponta… Nada tampouco ninguém me garante absolutamente nada, nem mesmo quando dizem, pensam, ou queiram me oferecer garantias de amizade eterna, amor eterno, segurança eterna… Nem mesmo eu poderia me dar tais garantias, nem mesmo eu poderia afirmar que seria mais feliz no Grande Lago; apenas posso garantir de que a minha alma parece precisar do abraço de um lago sem margens…

– E nos deixaria a todos só por esse abraço, Íbora?

– Não, Lufos, pois eu levaria comigo o amor que lhes tenho, levaria tudo o que compartilhamos, e, se tudo o que sonhei fosse nada do que sonhei, teria a dignidade de reconhecer e voltar atrás… Ao menos estaria mais inteiro e teria a certeza das escolhas que eu fiz.

– Então você é egoísta o bastante para ter me arrastado até aqui, para então me abandonar! Você é mesmo um irresponsável que não dá valor a nada! Não dá valor às coisas, aos peixes que você mesmo cativa! Sempre soube que você era assim, egoísta irresponsável, e prepotente!

Íbora estava tão triste que nem mesmo lhe sobrava muita energia para responder, ainda assim:

– Eu teria buscado o caminho de volta para casa, para o que você chama de lar, teria morrido em busca do caminho de volta só para sabê-lo em segurança, mas depois Lufos, eu teria partido sozinho para buscar o abraço de um lago sem margens.

Águas com margens, para mim, são como abraços com margens, e me sinto limitado entre margens e não  fazem com que me sinta abraçado, apenas sufocado, preso sem poder buscar algo da minha alma que se encontra no abraço salgado, nada seguro do mar que por tanto tempo chamei de Grande Lago…

À despeito da inegável tristeza de Íbora, Lufos sentira-se feliz… Não por egoísmo, ou ao menos não por egoísmo consciente, mas sentira-se feliz, porque sabia que Íbora seria feliz no rio que já era muito maior do que o pequeno Real Lago Real onde ele nascera…

Tão limitante aquele laguinho real, como Íbora podia ser tão cego ao não perceber que a felicidade consistia em estar abraçado ao seu lar, e os amigos que conquistara?

Lufos estava certo de que um dia Íbora ainda o agradeceria por levá-lo de volta ao rio com margens seguras, e os abraços seguros daqueles que verdadeiramente o amavam…

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One Comment leave one →
  1. Nolos permalink
    31/03/2010 7:45 pm

    – Eu só quero protegê-lo, Íbora, quero que você se dê conta de que esse seu sonho de buscar o Grande Lago é um sonho da sua infância… Mesmo que você pudesse ir até lá, mesmo que você pudesse viver no Grande Lago, você estaria deixando o certo pelo duvidoso! Essa busca sem fim é uma bobagem que só o impede de viver, de dar valor ao que você tem. Dar valor a todos que o amam! Quem lhe garante que o Grande Lago seria tão receptivo, tão repleto de segurança, de carinho, de amizade que você mesmo construiu?

    Foi escrito para mim e tens razão.

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