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cap.28 – SER O CALEIDOSCOPIO – JOYCE DAMY MOBLEY

25/03/2010

SER O CALEIDOSCÓPIO – JOYCE DAMY MOBLEY

Recorda-se que esta aventura era uma lembrança compartilhada, durante uma das aulas de Mestre Íbora? É que eu mesma quase havia me esquecido disso… Do dia em que Íbora acordara depois de muitos sonhos, e sentindo algo de diferente? Pois estamos de volta àquele dia, okay?
Anoitecia quando a aula foi dada por terminada…
As aulas não tinham hora para acabar, isso sempre dependia do que acontecesse no decorrer das mesmas. Podiam ser de cinco minutos, ou de quase um dia todo. Assim como a vida, como o tempo, como os desejos, as aulas não tinham um momento certo e preciso as aulas simplesmente aconteciam, e isso era parte da sabedoria.

(Não sei precisar quanto tempo havia se passado desde a volta dos dois amigos, desde que a cidade descobriu que eles não estavam mortos muita vida sem tempo, sem pressa, sem limites… Musiquinha de filme para mostrar que o tempo passou, tá?)

Lembra-se do dia do chororô? Todos choraram tanto, e Dona Venta-nias, mãe de Lufos, enchera milhões de toneis de lágrimas salgadas… Pois então… Aquelas lágrimas, como todas as lágrimas, menos as de crocodilos, sempre servem para alguma coisa… Servem para muitas, porque elas nos transformam, mas também servem para criarem outros sonhos de segredos…

Segredos? Sim, porque muitas vezes nem o próprio peixe sabe por que está chorando, então as suas lágrimas são um segredo para ele mesmo… Segredos bem segredados, daqueles que nem eles querem saber… Segredos do “deixa quieto” que é melhor assim…

Íbora entrava nos toneis de águas salobras, águas segredadas (tá bom, que saco: águas de lágrimas, tá bem assim? Coisa chata esse tal de princípio da realidade!). Lufos, Inkié-tus, e muitos outros peixes também entravam, mas era dolorido, porque as escamas dos peixes de água doce não eram preparadas para resistir ao contato com o sal…

Kálaty observava, e se Mestre Íbora não fosse assim tãããoo Mestre, ela teria proibido Inkié-tus de participar daquela grande bobagem… Eu já disse que o sobrenome de Kálati, é Jápraká? Não disse não? Tudo bem, é que acabei de inventar agora!

A frase que Kálaty mais repetia era o  seu próprio nome, somado ao se seu filho, só que escrito de outra forma:

– Cala-te Inkié-tus! Já pra cá!

Cada vez que Inkié-tus ouvia isso…

– Tá bom, mãe, eu já to indo…

Íbora já resistia bem à água salgada, e aprendera tantos segredos… Eram esses segredos, e a forma como Íbora se deixava tocar por eles, que o transformaram em um Mestre tão querido… Ele sempre encontrava uma forma de repassar tudo o que aprendia enquanto queimava a pela nas águas salgadas…

O que?! Você esta pensando que ele tinha algo de especial? Errou! Acorda porque você não é peixe para ficar hipnotizado! Acordou?!

Íbora tinha uma intenção… Não se machucava por nada… Na verdade, criar resistência, não pode ser considerado como um machucado… É mais uma forma de aprender a proteger-se enquanto se expõe, enquanto se vive de peito aberto para poder aprender um pouquinho a mais, porque só uma vida é muito pouco para aprender tantas coisas.

No caminho de volta, depois da extensa aula daquele dia, Lufos quebrou o silêncio, e perguntou:

– Você vai partir em breve, não é mesmo Íbora?

Íbora olhou intensamente para o nada… Como se procurasse por pedaços, por partes de um imenso quebra cabeças que é sempre completo (até mesmo quando aparentemente algumas peças são perdidas, porque podem ser re-encontradas, nunca se sabe… ou talvez se saiba, sei lá eu!).

Nosso peixinho sentia que a vida, tal como as pessoas, digo, peixes, parecia com um caleidoscópio que trocava de formas, de vestes, de perfumes e texturas conforme era tocada…

Algumas pessoas, digo, peixes, conseguiam observar o caleidoscópio, mas Íbora sentia necessidade de fazer-se caleidoscópio… Deixar-se tocar, tocar, compartilhar de danças e contra danças que criavam tão diferentes movimentos…

– Você pode vir se quiser Lufos, você e muitos podem vir se quiserem… Não posso escolher por vocês… Encontram-se  tão preparados quanto eu, mas a escolha cabe a cada um.

– Não posso acompanhá-lo Íbora, mas gostaria que você desistisse da ideia de adentrar o Mar, o seu Grande Lago… O que você pode encontrar lá, que já não tenha aqui?

– Não sei o que posso encontrar, nem sei se vou encontrar, não saberia dizer se realmente procuro alguma coisa, mas sinto que é chegado o momento de ir.

– Você não deve ir, não percebe que pertence a este lugar? Não percebe que pertence aos peixes que o amam, e você também os ama?

– Percebo Lufos, e é por isso que os carrego dentro de mim… É por isso que os convidei para participar de mergulhos nas águas salobras… Para que fossem livres para virem comigo, ou não…

A-hammm,

Joyce Mobley

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One Comment leave one →
  1. Becca permalink
    31/03/2010 7:10 pm

    Íbora tinha uma intenção… Não se machucava por nada… Na verdade, criar resistência, não pode ser considerado como um machucado… É mais uma forma de aprender a proteger-se enquanto se expõe, enquanto se vive de peito aberto para poder aprender um pouquinho a mais, porque só uma vida é muito pouco para aprender tantas coisas.

    Estou com saudade de ler seus comentários!
    xoxo
    Becca

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