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cap. 29 – VIVENDO ESCOLHAS – JOYCE DAMY MOBLEY

25/03/2010

VIVENDO ESCOLHAS – JOYCE DAMY MOBLEY

Partiu antes do amanhecer, apenas por precaução de que ninguém o acompanhasse sem que realmente quisesse… Era uma garantia, para ele mesmo, de que não estivesse induzindo ninguém a segui-lo. Sabia, por experiência, que ninguém podia realmente induzir, nem tampouco impedir, que cada um seguisse o próprio caminho. Entretanto, ao sair antes do amanhecer, quem quisesse partir para a nova aventura teria que estar bem decidido, ou ao menos teria que ter se esforçado o bastante para não ser vencido pelo próprio sono.

Íbora conhecia as artimanhas do sono… O sono chega assim de leve, como quem não quer nada, e quando menos se espera perde-se a oportunidade de viver alguma coisa porque se estava sonado para a vida. Escolhas, daquelas bem escolhidas, não se entregam ao sono, ficam despertas na vida e para a vida.

Deitou um último olhar para sua casinha, seus livros, suas coisas, e logo sorriu por sentir-se livre de poder partir levando dentro de si mesmo tudo o que precisava. Desta vez, diferente de quando partira do Real Lago Real. Não partia fugindo da sensação do nada… Partia para abraçar outras possibilidades, conhecer outras vidas, conhecer-se mais enquanto compartilhava de tantas vidas quantas cruzassem pelo seu caminho.

Como era bom poder partir sem deixar para trás coisas que lhe pesavam! Partir porque era o tempo exato antes que ele mesmo se deixasse enganar pela sonolência da vida.

Já conhecia parte do caminho, portanto conhecia as partes gostosas das corredeiras, e as partes que deveria evitar para que não ficasse preso às pedras, como da última vez… Riu-se do pensamento de que “desta vez” mesmo que ficasse preso às pedras, não teria que ouvir as infindáveis reclamações de seu grande amigo Lufos!

Como imaginara não havia ninguém acordado do sono para acompanhá-lo, não sabia se ficava feliz, ou um pouco triste por isso… Escolhas, escolhas, escolhas, cada um faz as suas próprias escolhas, duvida da própria capacidade de ir em frente. Cada ser, digo, cada peixe, vive as suas escolhas. Pode acreditar-se preparado, pode até estar preparado, mas não há garantias do que se vai encontrar.

Quando um peixe quer garantias do futuro que irá encontrar, o melhor é permanecer agarrado onde se encontra: Na ilusão de que agarrar-se fará com que a vida seja a desejada… Doce e boba e nênia ilusão, porque nem mesmo agarrados às mesmas pedras, o futuro será aquele que se imagina!

Deixar as certezas para trás é tão somente deixar a ilusão de que certezas existam… Íbora aprendera isso há tempos! Quanto tempo? Nem mesmo ele sabia por que o tempo não segue a cronologia conhecida. O tempo é interno, assim sendo, uns poucos dias podem equivaler a milênios, e milênios podem equivaler a instantes…

Passou uns meses no recanto de um dos braços dos vários rios, e conheceu diferentes peixes, vidas, ilusões. Aquele recanto não era conhecido por um número, mas um nome: Ítaca.

A vida em Ítaca parecia girar em torno do retorno (em torno do retorno é ótimo!) de Ulisses, um peixão destemido que saíra pela vida, assim como Íbora. Ulisses deixara para trás, Penélope, fiel peixinha que tecia de dia e, destecia quando a noite chegava, aquilo que tecera durante o dia… Íbora observava, não apenas Penélope, mas a vida em Ítaca…

Sabia que todo forasteiro deve adequar-se aos costumes, observar muito mais do que falar, tentar encaixar-se – de alguma forma – à vida dos moradores… Não é delicado chegar provocando estardalhaço e falando, e impondo, e chamando muita atenção. Há que se ter a delicadeza de não estar a pisar em vidas, que nem de longe se suspeitaria ser uma vida… No desconhecido o que se pensa ser um grãozinho de areia pode ser um sábio que já viveu muito mais do que uma única existência! Há que se ter cuidado onde se pisa, para evitar esmagar vidas que não percebemos, entendeu?

Os primeiros dias em Ítaca foram silenciosos… Íbora observava o que os peixes comiam, para certificar-se de estar a escolher a alimentação correta, e não alguma coisa que o pudesse envenenar. A lição de quase abocanhar uma isca, valeu-lhe até o fim de seus dias! Lembra-se de quando Íbora chegou ao rio? Sim, aquela primeira vez, quando saiu de dentro dos canos depois de dias apertados em todos os sentidos? Lembra-se de como Lufos o salvou de engolir, ou ser engolido por uma isca?

(Não lembra não? Então volta lá em não sei que capítulo porque eu já estou perdida aqui, e não posso lhe dar maiores informações… É que esse peixinho não para de me levar de um canto para o outro, e eu mesma já estou a ficar emaranhada nas redes dessa história! Vai lá e depois você volta, mas desta vez eu não vou ficar esperando porque você pode ler mais rápido do que eu posso escrever.)

No terceiro, ou quarto dia em Ítaca, Íbora escolheu um dos alimentos do local, um estranho alimento que nunca dantes experimentara… Era saboroso, um tanto adocicado,  não era de engolir, mas de mastigar e fazer bolinhas que se pareciam com as bolhas fofoqueira, só que não falavam nada. Quando Íbora viu o primeiro peixe soltando uma bolha, imaginou que estivesse contaminado pelas bolhas fofoqueiras, mas reparando bem, parecia ser uma espécie de brincadeira de mastigar e soprar.

Escolheu um canto um pouco distante, mas não muito, e começou a mastigar o tal do chuing-plókity, nome difícil, não é mesmo? Lá estava Íbora a tentar fazer as bolinhas, mas não acertava mais do que uma mínima, ínfima bolinha insignificante!

No segundo dia de chuing-plókyty, Íbora fez uma bola tão grande que ele mesmo ficou impressionado, e vesgo, ao olhar para a super bolinha que produzira… Lá estava Íbora, vesgo, e hipnotizado pela própria criação (isto sempre é um perigo! O que é um perigo? Já vi que tenho que explicar quase tudo! Perigo é encantar-se pela própria criação, pronto, expliquei!)

Retomando: Lá estava Íbora, encantado e vesgo, quando ouviu uma voz, que vinha de não se sabe onde, e dizia:

– Parabéns! Muito bem! Olha só o tamanho da bola que você fez!

Íbora tomou um susto tão grande que a sua enorme bola de chuing-plókyty explodiu no seu rosto! Não podia ver de onde veio aquela voz, porque tinha pedaços de plókyty até nos olhos! Levou um tempinho tentando limpar-se, e pensava:

– Não acredito que mais uma vez chego a outras vidas fazendo papel de bobo! A primeira vez que alguém fala comigo e eu aqui feito um parvo! Só me faltava tirar essa porcaria dos olhos e ver que a cidade toda está a me olhar nesta situação ridícula!

Tentou controlar suas emoções e foi retirando os pedaços de plókyty que estavam grudados em todo seu corpo. A primeira coisa que limpou foi um dos olhos, e com apenas esse olho procurou calcular o tamanho do vexame a que se expôs, mas não viu ninguém… Limpou o outro olho, e continuou sem ver ninguém por perto… Teria imaginado? Foi então que ouviu um riso que lhe dizia que não havia imaginado… Olhou para todos os lados, mas não via nenhum tipo de vida conhecida…


– Olhe para baixo, garoto!

– Estou olhando, mas não o vejo…

– Acabe de se limpar e olhe melhor (disse aquela voz entrecortada por risos)

Para ganhar tempo, nosso peixinho foi se limpando vagarosamente enquanto tentava ver o dono da voz, e o dono daquela gargalhada esquisita, mas gostosa de ouvir… Já estava absolutamente limpo, mas continuava sem ver qualquer ser vivente…

– Vai demorar muito para acabar de se limpar?

– Não, já acabei…

– Eu sei que você já acabou e que só está pretendendo limpar-se. E mais uma vez a voz para além de falar, soltou uma gargalhada!

– Onde você está? Perguntou Íbora.

– Debaixo de você!

Íbora deu um salto enorme; um salto de susto, e também porque imaginou que pudesse ter machucado alguma vida.

– Desculpa, desculpa, eu não pretendia machucá-la!

– Eu não sou uma machucá-la, sou um machucá-lo!

Íbora continuava a não perceber o que era aquela voz, mas isso é normal porque só reconhecemos, aquilo que já conhecemos, entendeu? Por isso é importante conhecer muitas formas de vida; é que só assim podemos ter certa proporção da nossa insignificância e também importância diante do todo, digo, da vida.

A-hammm,

Joyce Mobley

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