Skip to content

cap.5 -COMANDANTE BOCA ABERTA MOR-Joyce Mobley

25/03/2010

COMANDANTE BOCA ABERTA MOR-Joyce Mobley

Na realidade a tropa de “peixinhos boca-aberta” não conseguia memorizar tantas ordens e direções ao mesmo tempo; sobravam direitas e esquerdas e em frente naquele comando!

Com as informações corretas os soldados peixinhos puderam dirigir-se ao local indicado. Não marchavam elegantemente, pois estavam apavorados demais para isso. Não é possível para um peixe soldado coordenar marcha, elegância, e o medo que sentiam pela certeza dos futuros castigos, e admoestações, e humilhações, a que seriam submetidos assim que voltassem ao Real Quartel do Real Lago Palaciano.

Ao chegarem à casa do Senhor Líber, o Real Comandante colocou-se à frente de todos, e escolheu um soldadinho de quem nem mesmo conhecia o nome:

– Você! Sim, você, seu imprestável! Venha aqui imediatamente e bata à porta do meliante! Toque a campainha, puxe a calda dos peixinhos campainhas para que eles possam gritar, por que as minhas mãos não foram tão bem treinadas e cuidadas para tal serviço…

E pensar que ainda ontem gastei horas no meu escritório de comandante fazendo as unhas com aquela peixa manicure, que ousou machucar uma de minhas nobres cuti-escamas!

Assim foi feito. Puxaram as caudas dos peixinhos campainha, ao ponto de saírem com a cauda de um deles nas mãos. Bateram à porta, cantaram canções ameaçadoras; nadaram em torno da residência do Senhor Líber, mas nada…

Após mais de meia hora de ameaças, gritos, berros, campainhas, “decepações” de caudas, não se ouvia absolutamente nada! O Real Comandante nunca fora tão afrontado! Entre indignado e perplexo, com tamanha falta de respeito, deu a ordem para que derrubassem a porta da casa do meliante Senhor Líber.

Novamente os soldados olharam-se discretamente, é claro, pois as portas no Lago Real eram feitas de algas… Como derrubá-las se bastava atravessá-las?

Temendo desobedecer às ordens e se verem obrigados a fazer mais seiscentas, além das seiscentas já previstas flexões, resolveram derrubar a porta!

É preciso esclarecer que o Real Comandante só sabia contar até seiscentos, e por isso todos os seus castigos iam até… Seiscentos! Assim ele poderia sempre estar orgulhoso, imaginando que todos desconheciam as limitações das suas matemáticas, que foram aprendidas Durante o Curso Para Cadetes Reais, que pertenciam às famílias Reais, de toda real cansativa realeza!

O batalhão de peixinhos boca abertas invadiu a casa do Sr Líber, com tanta força, já que a algas não ofereciam a menor resistência, e ainda tentavam proteger-se daquele ataque inconcebível e ilógico, recolhendo o mais rapidamente possível, os seus longos cachos esverdeados e tão bem cuidados pelo Senhor Líber.

Ao entrarem com tanta força criaram verdadeiro caos naquela casinha tão aconchegante… Nada ficou no lugar, afinal nada era fixo… Descobriram livros proibidos, livros que contavam verdadeiras mentiras sobre o surgimento do Real Lago Real do Palácio, ainda mais irreal do que a “irreleza”!

O Comandante apenas gritava:

– Eu sabia, sempre soube! Na verdade este meliante é mais do que mero meliante, é um terrorista subversivo que espalha idéias mentirosas que contaminam o equilíbrio da vida, que todos devemos agradecer e reverenciar!

E continuou:

– Decreto por decreto decretado, indecretável, que este terrorista está condenado à morte, não antes de ser submetido a incansáveis interrogatórios, e confesse seus planos para destruição do nosso mundo tal como conhecemos e amamos!

Munido de inquestionável onipotência que lhe conferia a ordem da desordem unidas, gritou:

– Lago Real, acima de tudo!

Em coro os soldados peixinhos repetiram o que tantas vezes treinaram, sem a menor noção do real significado, mas com a real certeza de estarem dando a resposta exigida e esperada:

– Lago Real, acima de tudo!

Procuravam e recolhiam provas contra o Sr Líber, mas ele parecia haver desaparecido; foi então que uma correnteza mais forte empurrou um dos soldados peixinhos para o quarto secreto… Lá escorregando, ou nadando, ou perdendo o nado, o soldadinho cabeção boca aberta encontrou o Senhor Líber confortavelmente instalado em uma concha de madrepérola, presente da Princesinha, Filha Real do Real Rei do Palácio externo…

Todos ignoravam o fato de que Líber havia sido condecorado como herói! Há muitos e muitos anos a princesa alimentava os peixinhos do lago quando tropeçou e caiu no mesmo. O jovem Sr Líber, que na época ainda era conhecido pelo nome de Liberdade, fez todo esforço de que seu corpo era capaz, e ajudou a menina a sair do Lago Real. Agradecida, ela lhe presenteou com a linda concha de madrepérola onde Senhor Líber amava repousar, e sonhar lembranças de quando ele era mais do que meia liberdade.

Aquele segredo ficou guardado durante anos… A concha ficava num quarto secreto, o mesmo quarto onde encontraram o Senhor Líber. O Comandante Real foi chamado, e logo berrou que ele mesmo havia descoberto aquele quarto, seguindo a lógica real com a qual foi premiado ao nascer.

O peixinho calou-se, porque já sabia que chefes são inquestionáveis, e,  se quisesse manter-se no posto deveria calar-se…

Senhor Líber tinha um sorriso totalmente livre estampado no rosto, e naquele momento ele se parecia muito mais com o Jovem Liberdade, do que com o Senhor Maluco de quem tanto as bolhas falavam.

Intrigado pela falta de resposta, ou ao menos por um leve sobressalto vindo do terrorista meliante, o Real Comandante chamou o Real Oficial Médico que o acompanhava… Constatou que Sr Líber não mais respirava, e que estava morto há horas…

Confiscaram a concha em que o Senhor Líber dera seu último suspiro, feliz suspiro, estampado no exasperante (para o comandante) semblante de alegria e paz. Tentou-se de todas as formas retirar aquele maldito sorriso do seu rosto, mas por mais que tentassem o semblante pleno e pacífico apenas parecia ficar ainda mais evidente…

Recolherem todas a provas irrefutáveis da participação, quiçá liderança, do Sr Líber em tal movimento terrorista, enterraram-no como indigente… Enterrar um peixinho como indigente era o mesmo que oferecê-lo para que os patos reais o engolissem, e assim não deixassem o menor rastro da existência de peixes indesejáveis.

Entre os pertences do Senhor Líber, encontraram partes dos planos em que ele e Íbora trabalharam durante tanto tempo. Riram-se até não mais poder, por que estavam certos de que mais um peixinho subversivo, indisciplinado, e terrorista, havia morrido, como bem merecia: tragado pelo nada que existia, ou inexistia, depois das grades do Lago Real.

Como não conseguiam uma explicação para a concha de madrepérola do Sr Líber, presentearam-na ao Rei dos Peixes do Lago Real, como se a mesma houvesse sido esculpida especialmente para ele… E assim o Real Comandante Boca Aberta foi promovido à Comandante Boca Aberta Mor.

A-hammm,

Joyce Mobley

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: