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APENAS UM REFLEXO FANTASMA- JOYCE DAMY MOBLEY

25/03/2010

APENAS UM REFLEXO FANTASMA-Joyce mobley


Os percursos quase nunca são como imaginamos…

Por uma fração de segundos quase lamentou que Líber não estivesse ali para compartilhar aquele momento, mas logo sentiu que seu amigo estava vivendo as suas próprias aventuras…

Íbora tudo olhava, tudo sentia, tudo tocava, tudo cheirava. Às vezes sentia que era levado por uma corrente de água mais fria e mais forte. Enrolava-se todo ao tentar acertar o nado, e quanto mais se enrolava, mais embolava nas correntezas! Não conseguia acertar nada, que dirá o nado…

Como estava chegando, ao tão sonhado Grande Lago, queria causar boa impressão e nadar elegantemente… Impossível! Nem mesmo se houvesse prestado toda atenção às aulas de nado elegante, do Honorável Inquestionável Prof. Teobaldo, nem mesmo assim conseguiria nadar elegantemente. Naquela situação se conseguisse nadar já seria uma grande conquista!

As correntes das águas pareciam estar brincando com ele… Íbora mais uma vez lembrou-se de “sentir”, sentir primeiro e então perceber como ajustar o seu nado.

Recordou-se de que já havia ultrapassado tantas barreiras, e que tentar causar boa impressão era apenas um reflexo fantasma do que aprendera no Lago Real.

Parou de controlar, ou tentar controlar, o nado, e deixou-se levar pelas correntes que brincavam com ele; até que era divertido! Completamente diferente do que fora a experiência de ser tragado pela tubulação, e de bater seu corpinho contra os canos, as paredes. Ali ele era conduzido com delicadeza… Mais força… Menos força, e ainda assim não batia em nada!

Finalmente o Grande Lago! Nenhum ralo, nenhum ladrilho, nada que pudesse pará-lo, nada que pudesse impedi-lo, nada que pudesse prendê-lo a uma existência tão repetitiva e pobre.

Os peixes do Grande Lago não podiam deixar de reparar naquele peixinho que nadava de maneira tão estranha… Íbora ria tanto, enquanto era levado sem controle pelas águas, que outros peixinhos pensaram  tratar-se de alguma nova brincadeira.

Em poucos minutos havia um grupo de peixinhos que embolavam, ao sabor das correntezas, e às gargalhadas! Trombavam uns contra os outros e riam-se ainda mais!

Sem que trocassem uma só palavra, mas compartilhando os prazeres da nova brincadeira,  fez-se um suave vínculo que os unia com alegria. Em meio às brincadeiras chegaram a um recanto de água calma, quentinha, aconchegante…

Só então Íbora percebeu que estava faminto, pois suas provisões haviam acabado… É que o percurso até chegar ao Grande Lago não fora como ele imaginara, mas os percursos quase nunca são como imaginamos.

O bom disso é que ao chegar, ou não, àquilo que havíamos planejado, estamos muito mais enriquecidos internamente do que se tivéssemos seguido em linha reta, sem surpresas, sem desvios…

Os desvios, assim como as  surpresas, nos oferecem quase tudo… É só imaginar que só conseguimos imaginar até onde conseguimos imaginar (lê de novo, por que não vou colocar nenhuma vírgula nessa frase).

Os desvios e surpresas que Íbora tivera que enfrentar até alcançar o Grande Lago, lhe ensinaram a sentir e agradecer, mas também lhe deixaram com uma fome que parecia não ter tamanho!

Pensou que finalmente poderia mostrar algumas de suas qualidades, por que também valorizava o que aprendera quando vivia no Lago Real. Saberia mostrar como abocanhar um delicioso petisco, que certamente seria maior do que a sua fome, mas que era sinônimo de boa educação entre os peixes.

Mais uma vez Íbora pensava que isso, de abocanhar mais do que precisa, não fazia sentido nenhum, mas não queria chegar questionando tudo, pois não seria um comportamento adequado, ou educado…

Íbora preparou-se e nadou certeiro em direção do que havia escolhido para abocanhar.

Não podemos nos esquecer de que há toda uma ciência envolvida na arte de abocanhar elegantemente… É que: abocanhar, e elegância, carregam uma contradição intrínseca, mas isso não vem ao caso.

Nosso amigo sabia quê: Não se pode perder o alvo; não se pode deixar escapar nenhum mínimo pedacinho do alvo escolhido; não se pode ir pela beirada do prato (isso é coisa de iniciantes, e se aprende no primeiro ano escolar).

Sabendo de toda responsabilidade envolvida em abocanhar mais do que o necessário, Íbora respirou fundo, soltou o ar, respirou fundo mais uma vez, e soltou o ar… Estava difícil afastar os pensamentos que teimavam questionar a necessidade de tanta ciência envolvida em objetivo tão fútil. Para seu alívio, Íbora lembrou-se quê também havia aprendido, enquanto se debatia na tubulação, que há momentos para reflexões, e outros para ações…

Não há como fazer o levantamento dos motivos de um incêndio, durante o incêndio: Primeiro devemos correr do fogo, depois tentar apagar o fogo, com segurança, é claro, e por último fazemos o levantamento das causas do incêndio… Não é um bom exemplo tendo em vista que a nossa história acontece na água… Mas, serve; é só para ilustrar.

Retomando, nosso peixinho afastou quaisquer pensamentos mais lógicos que pudessem vir a atrapalhá-lo. Respirou fundo, juntou todas as forças que pareciam restar, preparou o corpo, as espinhas, as escamas,  acertou com precisão a direção, e disparou em direção daquilo que escolhera para abocanhar…

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