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cap.3 -INTERROMPIDOS PELA REALIDADE…-Joyce Damy Mobley

25/03/2010

INTERROMPIDOS PELA REALIDADE… JOYCE MOBLEY

Íbora atravessou as grades com o coração aos saltos. É incrível como, em momentos especiais, o tempo parece não existir e em frações de segundos nossos pensamentos podem dar voltas, tantas voltas, que revêem toda uma vida…

Como as voltas que seus pensamentos pareciam dar involuntariamente, visto que Íbora precisava concentrar-se em cada mínimo detalhe daquele novo mundo, tomar decisões rápidas, anotar tudo mentalmente para que depois pudesse transcrever, nosso peixinho foi sugado pela força das águas.

Seus pensamentos foram interrompidos pela realidade de estar sendo jogado com força contra paredes muito mais estreitas do que as que conheceu no lago palaciano. Tudo parecia rodar e, por mais que tentasse, não conseguia ter qualquer tipo de controle sobre o seu corpo.

Estava muito escuro, apertado, sufocante, e nem mesmo o duro treinamento a quê Íbora havia seguido, poderia lhe servir de qualquer ajuda neste momento: o imponderável! Deparara-se com o imponderável…

Tantos planos, tantos esforços, tantos segredos, tantos sonhos… Isso era a vida por detrás dos ralos? Por essa ele não esperava! Seus pensamentos embolavam tanto quanto seu corpinho, e ele pensavam: Foi isso o que aconteceu com o amigo do Senhor Líber… Por isso ele nunca voltou para contar o que havia depois das malditas grades do Real Lago Real Palaciano! Nada, não havia nada!

Custava-lhe acreditar que o Honorável Inquestionável Prof. Teobaldo de Etc. Etal estivesse certo: Não havia nada para além do lago real, apenas a morte.

Sem que o soubesse, ou pudesse compreender, Íbora estava sendo tragado pelas forças das águas que saíam pela tubulação do lago real. Começou a temer por sua vida; e a duvidar dos próprios sonhos; temia haver cometido o maior, e último engano de sua vida… Talvez não existisse nenhum grande lago.

Por mais que tentasse agarrar-se a resquícios de um sonho que lhe parecera tão real, aquela escuridão, a tubulação apertada, dificultava-lhe a respiração, e confundiam seus pensamentos que ficavam menos claros, ou quase tão escuros quanto à escuridão que o cercava.

A força das águas diminuiu, porém não diminuíam os medos e as dúvidas de Íbora. Como encontrar forças para retornar ao lago real? E, mesmo que força tivesse como encarar o julgamento dos habitantes do lago real? Seriam tão duros, ou mais duros do que ele mesmo estava sendo naquele momento?

Sentia-se sozinho, bobo, como um sonhador ridículo que não pudesse canalizar esforços para coisas realmente importantes… Poderia ter seguido carreira como inventor, no grande lago. Poderia ter seguido como um arquiteto que criasse paredes que dessem a ilusão de não serem margem frias e duras…

Como pudera, assim tão novo, jogar sua vida fora? Uma vida que acabaria nas tubulações por onde saiam toda a sujeira, e restos dispensáveis do Real Lago Real Palaciano!

Quase sentia saudades das aulas do Honorável Inquestionável Professor… Professor? A falta de oxigênio já confundia os pensamentos de Íbora, que não conseguia recordar o nome do professor. Pensamentos nublados e confusos atravessavam todas as suas escamas, e ele nem mesmo sabia que escamas também pensam!

Ai que saudades dos banquetes, dos bailes, até mesmo dos ladrilhos que ele contava… Uma pergunta insistente, que parecia ser a única coisa clara em sua mente, repetia cruelmente: Porque não posso ser, e sentir, e me comportar, e ficar feliz, como todos os outros peixes do lago real?

Exausto Íbora adormeceu, enquanto no Real Lago Real Palaciano todos procuravam por ele. Buscaram em cada recanto, em cada Vitória Régia, em cada alga, planta aquática, e até mesmo mosquitos, e larvas, foram conduzidos ao calabouço do Lago Real para serem duramente interrogados.

Era inadmissível que nem mesmo as fofoqueiras bolhas tivessem qualquer murmúrio, mesmo que inventado, que pudesse dar uma pista de onde aquele peixinho maluco e indisciplinado pudesse haver se escondido!

Questionaram a utilidade de um exército de bolhas inoperantes e caladas, até que uma delas tivesse dissesse:

– Se há alguém que possa dar qualquer pista, qualquer informação, este alguém é aquele senhor maluco e caduco!

– Que senhor, perguntou duramente o guarda real, desde a sua dura e real indignação por ver-se humilhado ao ponto de ser obrigado a procurar por um peixinho indisciplinado, e ainda ter que interrogar algum senhor maluco e caduco!

Triste realidade daqueles que se sentem humilhados por terem que fazer o próprio trabalho! Triste realidade daqueles competentíssimos que não podem delegar seu trabalho para um soldado real, e levar os louros das glórias de trabalhos que nunca realizaram.

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