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cap.38- Diluir-se No Todo – Joyce Mobley

19/04/2010

– Seja bem vindo, Íbora, disse Iargo, e completou: Finalmente uma companhia masculina para ajudar-me a aguentar as incompreensíveis conversas do mundo feminino!

Todos se recordaram de Ícaro; não compartilharam a recordação, pois algumas vezes não é preciso dizer nada…

A energia criada em torno de uma lembrança amada dispensa palavras, e nossos quatro novos – antigos amigos já aprenderam essa lição desde que romperam a primeira de muitas grades…

Como se houvessem pensando alto, Ysla disse:

– Aquela primeira grade, a grade do Real Lago Real, talvez tenha sido a mais fácil de atravessar, porque era mais óbvia, era sólida, era uma grade que podíamos tocar, desejar atravessar, odiar que ela existisse…

Íbora completou:

– As grades internas são mais difíceis de serem atravessadas. Tenho me deparado com elas muitas vezes; parecem trocar as vestes, mas são exatamente as mesmas grades internas…

– Não são EXATAMENTE as mesmas, Íbora, sua impaciência faz com que você assim perceba. Nossas grades internas tornam-se mais frágeis cada vez que as transpomos, disse Iargo.

– Tá, tá, tá, blá blá blá, disse Ystrela que já estava cansada de tanta conversa e queria mais ação.

– Lá vem ela, disse Ysla, blá blá blá, o quê?

– Quero saber o que cada um de vocês encontrou, e se já sabem como sair daqui.

Íbora olhou para Ystrela e por pouco não contou aos outros que ela já encontrara a saída, mas recebeu um olhar de cala-te boca, e de tão cansado de ouvir “cala-te” nos últimos tempos, resolveu compreender o olhar só para não ter que ouvir!

– Infelizmente não temos boas notícias, disse Iargo.

– Fale por você mesmo, retrucou Ysla.

– Peixas… Enfim, o que encontrei foi uma saída clandestina de esgoto para o rio!

Ysla riu para valer e completou:

– Vocês não imaginam o cheiro que impregnou Iargo, e quantos banhos de hidromassagem de cachoeiras ele teve que tomar até que ficasse com o seu natural cheiro ruim!

– PEIXAS! Disseram Íbora e Iargo ao mesmo tempo em que trocavam um olhar de: peixo para peixo…

– E você, Ysla? Perguntou Ystrela.

– Segui conforme planejamos, mas alguns quilômetros à frente deparei-me com uma barreira criada pelos humanos, parece que a utilizam para represar água…

E continuou o relato:

– Não compreendi o motivo de represarem água, mas constatei que por lá não há saídas. O máximo que conseguiremos será cair num lago, quando eles abrirem as comportas… Sua vez, Ystrela, o que você encontrou?

– Além deste peixinho atrevido e malcriado, disse Ystrela, mas deu uma piscadela para Íbora, que compreendeu que ela estava a brincar; além de Íbora, encontrei uma pequena passagem que fica escondida entre muitas pedras…

– Suficiente para todos atravessarmos? Perguntou Iargo

– Não levaria em consideração nenhuma passagem que pudesse excluir qualquer um de nós… Disse Ystrela e completou:

– Como somos pequenos poderemos nos utilizar da pequena saída, e chegaremos a um riacho, que -espero- nos leve até um rio de maior porte. Não segui, além disso, pois necessitaremos um do outro para fazer a travessia.

Íbora ouvia a conversa dos amigos enquanto percebia a camaradagem, o quanto trabalhavam em equipe por um mesmo objetivo, e o quanto aquilo era diferente das escolhas que ele fizera até então.

Recordava-se de suas brigas com Lufos, e do quanto ele o acusara de havê-lo “metido” naquela encrenca (as corredeiras lembra? Se não lembrar volte alguns capítulos.)!

Como era gostoso perceber que haviam relações construídas na confiança, cumplicidade, respeito, camaradagem… Relações em que as pessoas, digo, os peixes somam para encontrar soluções…

Decidiram, os quatro amigos, que partiriam na manhã seguinte se TODOS tivessem descansado o bastante. É que a verdadeira união em torno de um sonho, de um desejo, de um grande, ou pequeno objetivo, exige que cada peixe pense no outro como parte de um só corpo.

Mantendo a nossa individualidade ao mesmo tempo em que nos diluímos em um objetivo que é maior, muito além, do que somos em separado… Aquelas palavras não deixavam Íbora quê não estava certo de querer manter sua individualidade, ou diluir-se no todo… Diluir-se no todo o atraía fortemente… Tantas buscas, tantas vidas, tantas histórias que não eram suas, e ainda assim o eram!
Manter a nossa individualidade
ao mesmo tempo em que nos diluímos num objetivo
que é maior, muito além, do que somos em separado…

Íbora observava os três amigos, e a si mesmo, em separado. Não podia deixar de constatar que eles sabiam como conviver, compartilhar, formar um só corpo. Isso o assustava tanto quanto o seduzia; talvez o assustasse mais do que o seduzisse.

Ao observar tentava compreender o que significava, na prática, ser um corpo só… Diluir-se e manter-se uno, uma unidade, um ser único, manter a individualidade. Ele compreendia colaboração, participação, importar-se com o outro, mas o pensamento de formar um só corpo, de tomar decisões em conjunto, parecia lhe tomar o ar…

Por esse motivo tentava ao máximo observar cada palavra, cada movimento, cada troca de frase. Tarefa impossível! Por mais que observasse, e era um grande observador, não alcançava a profundidade daquela frase, ou pensamento, ou sabe-se lá o que poderia ser o tal do um e quatro… Os três mosqueteiros que na verdade eram quatro? Agora ele era Dartanhan…

A noite foi longa entre sonhos dormidos e sonhos acordados… É que Íbora dormia, sonhava, e acordava para tentar compreender os próprios sonhos… Era a primeira vez que Íbora percebia o próprio medo! Isso era difícil para ele, difícil de aceitar que sendo tão corajoso pudesse temer relações mais próximas; temia o que pudesse significar “diluir-se”.

Não foi uma boa noite, Íbora acordou exausto como se tivesse percorrido várias vidas em uma só noite. Procurou fazer os seus exercícios matinais, suas meditações, respirações, mas nada parecia aquietar o seu coração… Não era a viagem, pois afinal acabara de chegar acompanhado por Ystrela, e a meta para o dia era a de chegar exatamente onde os dois estiveram no dia anterior…

Estava pálido (para um peixinho, é claro). Iargo, Ysla, e Ystrela acordaram um pouco depois de Íbora. Estavam excitados diante da ideia de saírem daquele lugar e continuarem a buscar qualquer rio potável, e não o Grande Lago… É que em momentos de emergência nossos sonhos mais distantes devem ser atravessados por objetivos mais curto.

Dividiram o café da manhã, e essa divisão consista e compartilhar, apenas isso. Cada um buscava por alguma coisa, Íbora também fez isso, edições arrumavam um espaço onde todos compartilhavam do que cada um havia escolhido em separado.

Isso quase sempre faz com que o ato de alimentar-se seja mais divertido e rico, pois cada pessoa peixe escolhe algo de diferente e podem aprender a gostar de coisas que jamais escolheriam para comer, ou que nem mesmo soubessem tratar-se de alimento.

Explicaram à Íbora que eles tinham uma brincadeira que vinha de muito tempo: Todos depositavam o que haviam escolhido, mas era proibido falar durante a refeição… Isso implicava em que havia o perigo de que alguém-peixe comesse o último pedaço do que outro peixe escolhera para si mesmo.

Nosso peixinho achou que era uma brincadeira meio sem graça, mas… como era o Dartanhan dos quatro mosqueteiros, digo, quatro peixeteiros, resolveu calar-se e aceitar a brincadeira.

Tentou vigiar, pegar, parte do que ele mesmo escolhera, mas os três pareciam haver combinado de comerem exatamente o que ele havia selecionado!

Se não estivesse tão cansado talvez tivesse ficado mais aborrecido; entretanto, experimentou alguns alimentos que nunca antes provara, e gostou… Primeira lição… Pensou ele.

Era tão claro que os três amigos estavam prontos para partir, e que o mais animado, Iargo (também pudera, depois de mergulhar nos esgotos não podia desejar menos do que encontrar águas puras, e já esperavam por isso há dias)…

– Que tal, amigo Mestre Íbora, pronto para partimos?

– Sim, claro, prontíssimo e muito bem disposto! Respondeu Íbora.

Ysla olhou de soslaio para Íbora, pois o observara atentamente durante o café da manhã e era translúcido que ele não estava bem, e sua palidez não havia diminuído depois do café partilhado, quando indiretamente obrigaram a comer os alimentos mais energizantes.

– Não me sinto muito bem, disse Ysla, acho que teremos que adiar nossa partida… Sinto-me exausta; talvez possamos partir amanhã…

Nosso peixinho olhou para Ysla, mas ela não parecia nada indisposta! Foi quando Ystrela completou:

– Também me sinto um tanto indisposta, ou preguiçosa, acho que podemos passar mais um dia aqui para que Ysla se recupere.

– Obrigada, amiga. Disse Ysla.

Ystrela uniu-se ainda mais à amiga:

– Pensando bem, meu corpo ainda está dolorido e sinto que poderia recuperar um pouco mais de energia, já sabemos que quando um não está bem, fica mais difícil para fluirmos, e no final acabamos encrencados em alguma parte menos confortável do que agora estamos.

– Verdade completou Iargo, imprevistos são sempre possíveis de apareceram, qualquer um de nós pode machucar-se, e já tivemos essa triste experiência… Para quê partirmos sem que todos estejamos bem? O que você pensa sobre isso, Íbora?

Comovido nosso amigo respondeu:

– Não penso, mas sinto que recebi a segunda lição do dia, e que amanhã estarei melhor após de descansar, e depois da demonstração tão delicada de vocês sobre o que é seu uno, e ao mesmo tempo único.

E completou:

– Esta lição ficará para sempre marcada em mim: A delicadeza e respeito, também a lição de que ao querer acompanhá-los -por não querer dar o braço a torcer- poderia ter colocado todos em risco, ou poderíamos ter que encontrar um lugar menos confortável para que eu me recuperasse.

Com o coração, a alma, o corpo preenchidos e acarinhados, Íbora dormiu durante todo o dia,
Não sem antes recordar-se de quando perguntara à Lufos:
Qual é o seu medo?


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4 Comentários leave one →
  1. Rätsel Ewig permalink
    01/05/2010 2:02 am

    Mais um brilhante capítulo, complementado por, mais uma vez, um gosto musical impecável! Que música linda!

    abraços,
    Ewig

    • 01/05/2010 10:39 pm

      Oi Rätsel Ewig!
      Como sempre educadíssimo e perceptivo.
      Depois de muito refletir, e de muitas pedidos por email, vou fazer algumas pequenas mudanças e retomar Íbora. As músicas são para nos lembrar que tudo já foi dito… Em essência complementam-se ou falam a mesma coisa em linguagens diferentes.
      Beijo-Joyce Mobley

  2. leticia permalink
    20/04/2010 11:50 pm

    o que é seu uno, e ao mesmo tempo único.

    bjinhos

    • 01/05/2010 10:44 pm

      Se compreendi sua questão é: Como ser UNO com o todo e ao mesmo tempo Único; é isso?
      Minha linda, somos UNO e Únicos mesmo que não queiramos nos assumir como tal. Respondo com outra pergunta: Como não ser UNO com o todo, e, Único diante de si e do universo?
      Beijos-Joyce Mobley

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