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TEIAS NA FLORESTA – JOYCE DAMY MOBLEY

04/05/2010

Pareço caminhar por frágeis fios nos quais me equilibro… Comparo-os às teias de aranha, que tanto amo olhar; assim como amo o reflexo das gotas de orvalho e do sol que se refletem na aparente contradição de beleza única; também o bailado desconfiado que as aranhas dançam quando nos aproximamos. Já que o olhar é meu: Às vezes parecem imitar as bailarinas que dançam a morte do cisne. Como as bailarinas levantam-se e seguem seu caminho depois do grande ato…
Havia no quintal um lugar mágico, uma enorme caixa abandonada que servia de abrigo para várias aranhas; eu a chamava de “caixa mágica do meu viveiro”. Do meu viveiro minhas aranhas faziam novas estruturas, novos desenhos, teciam novas colchas todos os dias; criavam desenhos encantados que uniam a caixa mágica às árvores mágicas. Na minha inocência, ou sabedoria infantil, as aranhas teciam diariamente para que eu diariamente apreciasse a delicadeza da arte de crescer uma teia… Tinha com elas infindáveis conversas e estou certa de que nos entendíamos, pois depois de meses de convivência já não se assustavam comigo… Eu era a caçadora de mosquitos, que os guardava em vidrinho, para presentear minhas amigas mágicas. Colocava-os em suas teias, mas não estou certa de que os envolvessem para comê-los, ou por que as incomodavam; prefiro pensar que aceitavam os meus presentes, por que invariavelmente eles sumiam…

Uma vez tive um sonho, triste, profundo, dolorido, raivoso também. Óbvio que por anos o analiso e sempre encontro algo de novo… Sonhei que me encontrava em uma Floresta; amo as matas, amo as florestas, o som do vento que passa pelas diferentes árvores e compõe as mais diferentes canções. Retomando; ela conversava comigo e me dizia que eu ali deveria permanecer por algum tempo, e aprender muitas coisas antes de partir. Durante o sonho eu aprendia muitas coisas, mesmo pq o tempo perpassava o próprio tempo na Floresta.
Havia um penhasco, onde gostava de me sentar em silêncio, para esticar os olhos para o horizonte, e ver para além do que a Floresta densa me permitia. Algumas vezes, enquanto me sentava na beira do penhasco, eu via trens antigos que passavam com rostos que eu conhecia, e não conhecia, e que me convidavam para entrar e partir com eles… Eu ouvia a Floresta e ela me dizia: Ainda não… E eu ali permanecia.
Os trens antigos se fizeram mais atuais e de tempos em tempos paravam, e rostos conhecidos me convidavam mais uma vez para embarcar. Tantos trens passaram até que se transformarem metrôs; um deles parou, vi meus filhos lá dentro e eles me disseram: Vem, mãe! Novamente ouvi a Floresta que me disse: Você ainda não está pronta… Com uma dor enorme, e com vontade de partir, respondi para os meus filhos que os encontraria logo ali adiante daquilo que eu já sabia, e quando houvesse aprendido o que ainda não sabia.
Tempos que me pareciam eternos se passaram até que eu virasse para Floresta e dissesse: Quando é o tempo de partir? Quando eu terei aprendido o que vc tem para me ensinar? Eu não quero mais ficar aqui e sinto que vc não está me ensinando nada, quero ir embora!
Eu estava com raiva, muita raiva, enquanto falava isso. Então a Floresta me respondeu que eu sempre pude ir embora, que era isso que ela tinha para me ensinar. Senti-me traída, profundamente traída e triste, então chorei e disse desde dentro do meu choro: Vc me traiu, vc deliberadamente me fez acreditar que eu aqui deveria permanecer até que aprendesse tudo o que você tinha para me ensinar.
Ela mais uma vez me respondeu: Era isso o que você tinha para aprender, era isso que eu tinha pra lhe ensinar. Novamente respondi com raiva: Que eu era livre para partir? Mas, eu sempre soube disso! Você me traiu! É você quem se sente só, e imutável, neste lugar de onde não pode partir sem partir a sua essência de ser o que é: Uma Floresta que nem mesmo se dá conta de que não precisava me enganar para que eu aqui voltasse tantas vezes para me acompanhar de você, e para acompanhá-la no seu cansaço de cumprir o próprio destino de ser floresta.
A Floresta se calou, pq sabia que se eu tinha algo para aprender com ela, ela também tinha algo para aprender comigo… Ela quis me ensinar liberdade, ela quis me ensinar escolhas, mas esqueceu-se de que já eu era livre para voltar e partir tantas vezes quisesse, e tantas vezes ela me quisesse bastando me chamar.
Ainda hoje passeio por essa Floresta e conversamos longas conversas de pequenos grandes nadas repletos de pequenas grandes verdades.

Um ano depois de haver escrito este sonho:

Tenho sido floresta a olhar a vida e as pessoas através dos lindos desenhos coloridos das teias de aranhas. Elas me emprestam as gotas de orvalho, o sol me empresta seus reflexos, a floresta me empresta suas cores, e tudo parece tão lindo…
Olga era o seu nome e era míope que só… Aos quarenta anos ganhou o primeiro par de óculos; todos esperavam ansiosos que ela chegasse em casa para ouvir o que ela diria ao poder ver o mundo, as pessoas, objetos, tal como eram… Olga chega em casa e vai olhando um por um… Espantada, ela diz: Nossa como você é feio! Nossa como você é feia! A garrafa de cristal era tão linda… Pensei mesmo que ela fosse arrancar os óculos para continuar a ver o mundo e as pessoas através da sua quase cegueira de 13° de miopia. Não o fez, mas aprendeu a ver a beleza do real.
Percebo-me Olga… A Olga lá do interior de Minas… Olga da cidade onde existe uma pedra que esconde um monstro que foi preso por algum herói desconhecido… Olga dizia que quando a pedra se abrisse o monstro escaparia e o mundo deixaria de ser o que sempre foi!
Acho que o monstro é um par de óculos, e um olhar para a vida sem o colorido das teias na floresta…
Não vejo nenhum trem, ou carruagem, metrô, taxi, nem mesmo meu cavalo alado e azul, que estejam disponíveis neste momento em que de dentro da floresta, pois me concedo este carinho, passo a olhar para a vida, para as pessoas, para o mundo, sem me esconder atrás de minhas encantadas e encantadoras teias de aranha.
Descubro que não preciso olhar através delas… Somos feitas do mesmo material aparentemente frágil.

“A teia de aranha, na mesma base por peso, tem cinco vezes mais do que resistência do aço de um mesmo diâmetro. Importantemente, esta resistência ao rasgo equivale à do Kevlar (material dos coletes à prova de bala) e se mantém assim, mesmo a 40.º C (potencial aplicação no revestimento de peças aéreas).” José Domingos Fontana- Professor Emérito da UFPR

PS: Olga acostumou-se com os óculos e encontrou beleza nas vidas, nos objetos, nas pessoas; assim como eu estou a encontrar beleza na total falta de poesia do olhar desprotegido da magia das teias na floresta.

Abraço de brisas perfumadas.
A-hammm
Joyce Damy Mobley

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4 Comentários leave one →
  1. Edsst permalink
    04/05/2010 9:45 pm

    Pareço caminhar por frágeis fios nos quais me equilibro… Comparo-os às teias de aranha, que tanto amo olhar; assim como amo o reflexo das gotas de orvalho e do sol que se refletem na aparente contradição de beleza única; também o bailado desconfiado, que as aranhas dançam quando nos aproximamos. Já que o olhar é meu: Às vezes parecem imitar as bailarinas que dançam a morte do cisne. Como as bailarinas levantam-se e seguem seu caminho depois do grande ato…

    Tu não pareces caminhar minha loirinha. Pareces flutuar como uma anja zangada e mais doce que hummmmmm
    EdssT

    • LAIS permalink
      05/05/2010 4:12 pm

      OI

      “Pensei mesmo que ela fosse arrancar os óculos para continuar a ver o mundo e as pessoas através da sua quase cegueira de 13° de miopia. Não o fez, mas aprendeu a ver a beleza do real.
      Percebo-me Olga… ”

      Não se pode dar TUDO oque tens
      É Preciso sempre contar com NADA das pessoas só assim nos decepcionamos menos,porque decepções teremos sempre, somos humanos e nem todas as pessoas são educadas do mesmo jeito.

      Não a conheço mais lendo este teu post direi o seguinte, me pareceu que és uma pessoa que abraça o mundo e acaba por absorver os problemas dos outros como se fossem seus e isso não é bom pra você,acredito que já tenha percebido isso.

      bju

      • 07/05/2010 5:00 am

        É uma distorção profissional e também uma característica de minha personalidade… Contudo, uma vez que passo a perceber algo que deve ser lapidado e trabalhado em mim muitas coisas mudam, pois escolho a disciplina, meta, decisão de modificar traços de mim.
        Brinco muito, brinco mesmo sozinha. Alegria é também um dos meus traços de personalidade, mas sou extremamente séria diante da vida e do outro. Recentemente descubro que as pessoas são de uma falta de seriedade, que no momento passa do sério para o cômico.
        Tenho saído detrás das teias de aranha e me divertido com este novo olhar sobre as pessoas, algumas das quais eu considerava profundamente sérias… Não o são.
        Beijossssss e thanks. É sempre bom perceber como podemos ser óbvias e este seu comentário me ajudou a dar mais um passinho no caminho que agora escolho.

    • 07/05/2010 4:52 am

      Talvez flutue; afinal não tenho nenhum planeta em terra…
      Edsst

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