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E O REALEJO DIZ QUE EU SEREI FELIZ – Joyce Damy Mobley

25/06/2010

“Seja qual for o caminho que eu escolher um poeta já passou por ele antes de mim”
S. Freud

Realejo deve ser algo de inimaginável para os jovens – não sei se apenas os jovens das cidades grandes… Será que ainda existem Realejos?
Quando eu era criança ouvia ao longe o som do Realejo: O homem do realejo vem chegando!
Esse era o meu grito, muito embora o grande reboliço acontecesse em torno de um pobre periquito que apanhava aleatoriamente pequenas fichas nas quais haviam “sortes” escritas… Lembram as “sortes” que nos chegam hoje em biscoitos quando solicitamos comida chinesa. Para minha decepção a última vez que pedi comida chinesa os biscoitos tinham propagandas escritas… Exagerada que eu sou! Não fiquei tão decepcionada quanto a minha filha, mas tomei emprestada parte do sentimento dela.
Os realejos chegavam com sua inconfundível música que parecia sair de uma enorme caixinha de música; devo confessar que as caixinhas de músicas me encantam até hoje… Algo entre a suavidade da música e a solidão da bailarina que dança para o seu próprio reflexo cercado de espelhos, que, -quando criança – pareciam ser espelhos encantados. Ao fechar as caixinhas pensava sobre o quê a bailarina pensava, ou sentia ali guardada. Não raro colocava uma coberta – qualquer paninho bonitinho- para que ela não ficasse com frio. Também colocava meu soldadinho de chumbo (lembra do conto?). Quem sabe eles se apaixonassem… Também poderiam ficar amigos e contar um para o outro seus segredos enquanto eu dormia.
Tudo era tão vivo… Tudo era envolto em histórias misteriosas, e encantadas, quando eu era criança… Acho que eu encontrava uma saída mágica, que não repartia com ninguém, pois me era claro que seria considerada ainda mais estranha Por mais supostamente adulta que eu seja, pois afinal meus filhos o são, penso que o mundo adulto era e É estranhésimo!
Recordo-me de meus pais perguntando se eu não seria diabética – adorava, e adoro beber água! Eu não sabia o que era diabética e então respondia com toda certeza: Claro que não! Diabete, certamente, era algo contra beber água na quantidade em que eu bebia, e eu jamais seria alguma coisa que fosse contra água!
O Realejo… Sim, o Realejo… Eu era a primeira a gritar: Lá vem o Homem do Realejo! Crianças e adultos (mulheres) cercavam o periquito à espera de uma sorte que fosse a desejada – imagino – mas não estou certa disso.
O periquito preso a escolher as sortes sempre me incomodava, e eu não queria saber a minha sorte; o que eu queria era compreender aquela caixa de onde vinha o som que tanto me encantava. Também imaginava o porquê não havia uma moça do realejo… Uma moça que se vestisse como fada e tocasse a linda música… Imaginava também que cada pessoa pudesse colocar as mãos nas fichas e senti-las, sentir qual a sorte que elas mesmas escolheriam.
Poder escolher foi, e, é forte em mim. Escolher e escrever os meus próprios caminhos, não poder responsabilizar, ou me ressentir, de que alguém, que não eu, determinasse o que eu viveria. Levei anos para aprender que nossas escolhas não são tão livres quanto eu sonhava quê seriam no dia em que eu me tornasse adulta.
Há um periquito preso nas pessoas e esbarramos frequentemente com o mesmo… São eles, os periquitos presos, que barram, impedem, limitam a liberdade de nossas escolhas. Impossível escolher livremente quando se vive em sociedade, quando vivemos relações em que os outros também fazem as suas escolhas, que acabam desenhando as nossas, ou o que nos resta escolher diante do emaranhado de vidas e escolhas.
Hoje acordei com uma música na cabeça:
“O que será o amanhã?
Pergunte a quem souber…
O que irá me acontecer?
O meu destino será o que Deus quiser…
E o Realejo diz
Que eu serei feliz!”
Eu adoraria ter um Realejo que pudesse tocar cada vez que a vida parece tão dura, tão cheia de desencantos… Não teria o periquito e tampouco as fichas com sortes escritas em papéis amassados… As fichas eram feias: Brancas, Rosas, e Azuis… Acho que as pessoas as amassavam dentro de seus contentamentos, ou descontentamentos, diante da falta de escolha de periquitos tristes… Talvez seja a tristeza, e não os periquitos, que teima em desenhar destinos de pessoas crédulas que se encantam com o som dos Realejos.
Ao longo dos anos percebo o quanto pessoas atravessam as vidas de outras pessoas e desenham destinos eternos, que desfacelam diante da primeira frase, gesto, riso, palavra que não esteja dentro dos padrões esperados. Ao longo dos anos observo pessoas que tentam bravamente encaixar-se nos padrões de outras pessoas para serem merecedoras da própria sorte, ou azar, ou capacidade de ler a sorte daqueles que lêem a sorte e determinam realidades…
Crianças nascem de momentos de amor, momentos de sonhos… Crianças são acarinhadas, ou desprezadas segundo a “sorte” daquilo quê um dia foi confundido com amor… Talvez os periquitos presos fossem mais generosos, ao menos eram animais.
Se o meu destino será o que Deus quiser, por que um realejo diz que eu serei feliz?
Não estou certa da existência de um Deus nos moldes apregoados por nenhuma das religiões… Talvez um Deus que seja energia, que seja o somatório do inconsciente coletivo, de tudo que já foi vivido, e talvez do que venha a ser vivido.
Abraços de brisas perfumadas.
A-hammm
Joyce Mobley

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6 Comentários leave one →
  1. 03/01/2012 5:33 pm

    Muito linda, tenho mil recordações!!!

  2. Tia permalink
    26/06/2010 12:12 am

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk uma caixinha dessas?

    Vou perguntarr pro homem aonde vende beijos :p

  3. Tia permalink
    25/06/2010 11:47 pm

    Não sei se é a mesma musica mas é assim ó:

    fuimfuimfuimtitutiu ( imagine o homem virando uma manivela 🙂

    Beijos

    • 25/06/2010 11:52 pm

      KKKKKKKKKKKKKKKKK!
      Gaiata! Deve ser esse mesmo! Eu queria uma caixa dessas kkkkkkkkkkkkk!
      Beijossssssssssssssssssssss

  4. Tia permalink
    25/06/2010 11:16 pm

    Eu sei o que é um realejo,de vez em quando ouço a musica dele, deve ser o homem a passar lendo a sorte.
    Acredito que o encanto do realejo seja a de transmitir fé e pensamento positivo para as pessoas.
    Você será muito feliz,por que você acredita e luta por isso.
    O futuro?
    Vamos vibrar para que seja maravilhoso e que nada,mas nem mesmo o inconsciente coletivo influa em alguma coisa.

    Beijos e maior respeito pela pessoa que você é,que me estendeu a mão quando mais me senti perdida

    • 25/06/2010 11:26 pm

      Que lindo!
      Onde você ouve o Realejo?
      Nunca mais ouvi… Adoraria saber se a música é tão mágica quanto parecia ser.
      Linda! Estendemos as mãos muitas vezes e ainda assim dependerá de quê o outro a segure, e não abandone o reencontro consigo mesmo diante de dificuldades. Rever a vida é sempre difícil, pois significa tomarmos as rédeas e deixarmos de responsabilizar o mundo por nossas mazelas.
      Há pessoas que fazem coleção de mazelas, têm a patente da dor, e por isso mesmo decidem o que vão viver, até onde vão viver, e o que viverão os que cruzam pelos seus caminhos. Uma lástima que ao aproximar-se das pessoas ainda estejam tão presas ao passado que não percebem quase nada que não comprove exatamente as suas próprias profecias.
      Você é mais uma das que escolheram crescer, e eu fico super feliz por você!
      Beijossssssssssssssssssss

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